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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Berlinale que não está sob os holofotes

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

A 59a edição da Berlinale, Festival Internacional de Cinema de Berlim, encerrou no sábado, dia 14 de fevereiro, sob uma frente fria que trouxe neve para a fascinante cidade de Berlim. Para o visitante credenciado (20 mil credenciados de 136 países, segundo a organização), e no meu caso, como jornalista e crítico, os 383 filmes exibidos em 1238 sessões frequentemente se transformam numa série de escolhas difíceis que precisam ser feitas, especialmente pelo fato de os spotlights estarem quase sempre na mostra competitiva que leva ao Urso de Ouro.

Nesta terceira experiência profissional na Berlinale, me chamou a atenção como o festival revelou-se diferente pelo fato de eu finalmente me livrar algumas vezes da competição em direção à mostra mais alternativa Forum, ou à mostra fora de competição Berlinale Special, esse ano dedicada a novos filmes de velhos mestres. Foi lá que algumas belas descobertas foram feitas, como o filme belga Double Take (Forum), de Johannes Grimonprez, ou Peculiaridades de uma Rapariga Loira (Berlinale Special), de Manoel de Oliveira.

Numa perspectiva de cinema alemão, o Festival abriu com The International, que o cineasta alemão Tom Tykwer dirigiu com equipe alemã para a Sony Columbia Pictures, não muito bem recebido, mas cujo tema (bancos internacionais como fonte de problemas para o mundo) mostrou-se perfeitamente em sintonia com o clima atual da economia. Alle Anderen, da jovem realizadora Maren Ade, foi bem recebido em Berlim, e ficou com o Urso de Prata (dividido com o uruguaio Gigante).

Essa redescoberta da Berlinale me mostrou um festival enorme, frequentado por cerca de 270 mil espectadores e que movimenta a cidade como um todo, em dezenas de salas com perfeitas condições técnicas de som e imagem. O que mais impressiona é que eu não fui a uma única sessão que não estivesse lotada, inclusive nas sessões da Retrospecktive 70mm - Bigger Than Life, que atraiu admiradores saudosos de inúmeros países para ver filmes projetados no clássico formato 70mm no Cine Star 8 (enorme sala de multiplex no Sony Center, em Potsdamer Platz) e no maravilhoso Kino International (Karl Marx Ale), sala de design comunista na Berlim Oriental onde os principais filmes do bloco soviético estreavam nos anos 60, 70 e 80.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Berlinale premia a ideia de latinidade

Foram entregues na noite gelada de sábado os prêmios da 59ª Edição do Festival de Berlim. A cerimônia, realizada, no Berlinale Palast, em Potsdamer Platz, definiu como grande vencedor do Urso de Ouro de Melhor Filme peruano La teta asustada, da diretora Claudia Llosa, narrativa marcada pelo realismo fantástico latino-americano. É o segundo Urso de Ouro consecutivo para o cinema latino-americano, o brasileiro Tropa de Elite venceu ano passado. Llosa dedicou o prêmio ao Peru. Outro grande destaque da noite foi a tripla premiação de Gigante, filme uruguaio de Adrian Biniez.

Os resultados de Berlim ano passado e agora soam como enigmáticas finais da Copa América. Brasil (com Tropa de Elite) e México (com o microdrama de risos discretos Lake Tahoe, de Fernando Eimbcke). Este ano, Uruguai e Peru. Representam o reconhecimento artístico via um dos principais festivais internacionais de cinema do mundo para uma produção local que, juntando os quatro filmes, soam especialmente pré-moldadas como cinema, e que seguem caminhos já bem gastos por esse mesmo cinema.

Se Tropa de Elite reveste o filme de favela com estética moderna de filme de ação hollywoodiano, Lake Tahoe e Gigante fazem arte da escola de world cinema lacônico e cheio de boas intenções, ganhador frequente de prêmios ecumênicos. La teta asustada, por sua vez, entra no nicho muito bem aceito de “realismo fantástico” latino.

O simpático Gigante, por exemplo, sobre um segurança de supermercado que apaixona-se pela garota da limpeza, ficou com Melhor Primeiro Longa e Troféu Alfred Bauer, dedicado a “filmes que abrem novas perspectivas na arte do cinema”. Muito longe de ser ruim, Gigante, de qualquer forma, revela-se uma historinha pueril de amor entre um ogro e uma garota, com final especialmente decepcionante, ou, talvez, a verdadeira revelação dos interesses do filme, que parecem voar baixo.

O filme de Biniez ilustra bem os caminhos tomados (e premiados) por esse quarteto de filmes. É correto, parece ter sido feito com grande cuidado a partir de manuais de realização, por alunos atentos à carpintaria. Faltam-lhes, no entanto, alma.

VETERANOS
Curiosamente, o prêmio Alfred Bauer foi dividido com o mestre polonês Andrzej Wajda (Canal, Homem de Ferro). Com mais de 60 anos de cinema, apresentou, em Berlim, Tatarak, relato pessoal sobre a perda, claramente a obra de um cineasta maduro que passa a sua vida a limpo.
Berlim terminou juntando uma mostra praticamente paralela de cineastas veteranos com suas obras novinhas em folha, dos quais o filme de Costa-Gavras talvez seja, de longe, o mais fraco e frustrantemente convencional. Na maioria dos casos, em tratando-se desses realizadores mais velhos, o espectador precisa ajustar-se à quantidade de alma em cena, e perceber a permanência curiosa de estilos de filmar que só poderiam ser descritos como “velha escola”, motivo de grande quantidade de resmungos nas platéias.

A francesa Catherine Breillat, ainda debilitada e andando com auxílio de bengala por causa de um derrame, há dois anos, mostrou na Panorama sua reinterpretação da história do Barba Azul. Interessante o tempo inteiro, o filme passa como uma fábula infantil adequadamente terrível sobre a alma feminina.

O grego Theo Angelopoulos chuta o pau da barraca sem medo de ser feliz com The dust of time, um filme de arte do tipo que passa no inferno dotado do aspecto positivo de ser um filme singular, certamente de ninguém mais do que de Angelopoulos. Sem medo de quebrar suas gruas, o grego acredita na grandiloquência de uma mise-en-scéne solene para falar sobre o peso da história na Europa, num período que cobre 50 anos. Alguns espectadores poderão protestar indo embora, mas o dinheiro do ingresso pelo menos está projetado na tela e no desconforto geral de Willem Dafoe, num elenco também composto por Bruno Ganz e Irene Jacob.

Se Claude Chabrol continua mantendo o nível com o seu novo policial farsesco Bellamy (passados alguns dias, pode-se dizer que seria um “filme menor” do mestre), o grande mistério do atual cinema chama-se Manoel de Oliveira. A piada em Berlim, dos muitos que se encantaram com seu novo filme, Singularidades de uma rapariga loira, eu incluído, é que trata-se do Curioso Caso de Manoel de Oliveira, o cineasta de 100 anos que mostra-se mais leve e jovem a cada filme. Peculiar, com certeza.

Um Costa-Gavras menor no encerramento da Berlinale

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

Eden a l"Ouest foi o filme de encerramento do Festival de Berlim 2009, exibido em sessão de gala na noite de sábado. É o mais novo filme do cineasta greco-francês Costa-Gavras, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 1982 por Desaparecido – um grande mistério (Missing). Na coletiva de imprensa, Gavras confirmou à reportagem do Jornal do Commercio que estará no Recife em abril, quando Eden à l’Ouest (O Édem é o Oeste) irá abrir a próxima edição do Cine PE. O filme teve sua estreia internacional na Berlinale.

Como todos os outros autores maduros cujos novos trabalhos tiveram estreias mundiais em Berlim ao longo das últimas duas semanas (o francês Claude Chabrol, o grego Theo Angelopoulos, o português Manoel de Oliveira), Gavras mostrou seu filme novo longe da competição, onde esteve pela última vez em 2002 com o fraco drama sobre o Holocausto e a Igreja Católica, Amém. Na noite de sábado, a Berlinale parabenizou Gavras pelos seus 76 anos, comemorados quinta-feira. Ele foi também presidente do júri ano passado, responsável pelo Urso de Ouro de Tropa de Elite.

Sobre os filmes de autores maduros exibidos em Berlim, Eden a l"Ouest tem um ritmo em alta rotação para narrar a história de Elias (o ator italiano Riccardo Scamarcio), um jovem imigrante que vai dar numa praia da costa europeia depois de viagem difícil no porão de um navio cargueiro. Elias representa os milhares de imigrantes que chegam ao mundo rico sem uma identidade definida e de forma ilegal, à procura de uma vida melhor, um dos temas mais filmados do cinema europeu atualmente.

O material de imprensa do filme nos informa que há semelhanças com a Odisséia, de Homero, inclusive com o início da aventura no Mar Egeu. Elias, que pula do navio antes da abordagem da guarda costeira grega, vê-se preso num resort onde as classes mais ricas pagam por estadias higiênicas, distantes do mundo real, confirmando o tom de fábula do filme, repleto de simbolismos encaixados pelo roteiro de Gavras e Jean Claude Grumberg.

Inicialmente, a interpretação de Gavras sugere que esse clube (chamado Édem) seria um reflexo da própria Europa. Os ricos ali hospedados são egoístas e insensíveis, e querem explorar Elias em diversos níveis, inclusive sexualmente. Passada a primeira meia hora, o filme efetivamente toma as estradas do continente em direção a Paris, que Elias acredita ser a resposta para todos os seus problemas. Paris é também a promessa de um mágico, prova de que algumas metáforas escolhidas não têm tanta qualidade.

Gavras sempre foi bem sucedido ao longo da sua carreira com thrillers políticos ágeis, mas em Eden a l"Ouest ele parece bater alguns recordes de velocidade. Elias, composto como uma versão do bom selvagem, algo lamentável num filme sobre imigrantes, corre e se esconde durante a totalidade das duas horas de projeção, quando o espectador passa a ter a sensação de estar vendo uma bola batendo pra lá e para cá dentro de um fliperama.

Cada situação, algumas com não mais do que 30 segundos, também não parecem se sustentar bem. Lembranças de Depois de horas, de Martin Scorsese (onde um personagem vê-se fugindo freneticamente da noite de Nova Iorque) sublinha o quão menor esse filme de Gavras é.
Outra coisa que chama a atenção é o fato de Gavras sempre ter trabalhado personagens que agem contra alguma coisa. No caso de Elias, ele é apenas um boneco passivo, e outra vez esta não deve ser uma imagem a ser apreciada dos pobres imigrantes. Aos 76 anos, Gavras fez um filme de subversão zero.

COLETIVA
Exibido numa Berlinale já esvaziada, no sábado, Eden a l"Ouest foi, mesmo assim, relativamente bem recebido. Gavras, mesmo assim, sentiu críticas negativas no contato com os jornalistas, como uma colega francesa que perguntou com discreta irritação, “por que seu personagem é tão ingênuo?” O diretor e co-roteirista não acredita que ele é ingênuo, mas que é um otimista, e citou Cândido, de Voltaire, como referência.

Perguntamos sobre a idéia do clube fechado como metáfora da Europa, e Gavras respondeu que, de fato, a idéia original seria ambientar o filme inteiro no Édem, mas que logo perceberam que o resort nada mais é do que uma bolha onde as pessoas passam poucos dias”.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

A principal participação brasileira no Festival de Berlim 2009 é o documentário Garapa, de José Padilha, exibido na mostra paralela Panorama Dokumente. Padilha, claro, volta ao festival que, ano passado, concedeu o Urso de Ouro ao horroroso Tropa de Elite, seu filme anterior, e sua primeira incursão na ficção. De volta ao relato documental (surgiu em 2002 com o riquíssimo Ônibus 174), Padilha provavelmente irá provocar debates outra vez com seu filme novo, que usa o cinema para apresentar um retrato literal, letra por letra, da fome, utilizando como personagens registrados três famílias cearenses do interior, vivendo em condições sub-humanas que a câmera intimista mostra em detalhe e em preto e branco.

O filme abre com uma citação a Josué de Castro, que reflete sobre a existência de duas fomes: a ausência de comida que leva o organismo a definhar, e à fome constante composta pela má alimentação que levará, de outra forma, ao colapso do organismo a longo prazo.

Curiosamente, o tema "fome" está abordado brilhantemente na atual safra de cinema internacional pelo cineasta inglês Steve McQueen, a partir de um cenário sensorial, humano e político no seu Hunger (fome), sobre os protestos na Irlanda do Norte em 1981 que levaram o membro do exército republicano irlandês Bobby Sands a definhar via greve de fome auto imposta. McQueen transcende em muito o seu tema através do próprio cinema, no caso dele interessadíssimo pelo elemento humano, interesse que vai do corpo à alma.

Garapa, claro, é um filme diferente, e um doc, que aborda um cenário brasileiro social crua e diretamente. Como uma espécie de cronista nacional de "grandes temas" sociais (a violência em Ônibus 174 e Tropa de Elite), Padilha se debruça sobre a fome de maneira literal. Vale destacar que, se em Ônibus 174 tínhamos um panorama social e humano bem equilibrado, provável reflexo dos múltiplos ângulos que seu material de arquivo foi capaz de fornecer, sem falar na competência de realização e carpintaria de Padilha, é fácil identificar em Garapa o realizador de Tropa de Elite, particularmente na super-simplificação de uma questão complexa.

Não há um conceito que transfome em cinema a sua tese-filme. O que temos é uma câmera abelhuda que se mistura ao cotidiano interno das três famílias, onde acompanhamos crises conjugais, acusações de traição, abandono e, especialmente, a alarmante não-dieta dos personagens.

Em close-ups de microscópio, vemos as perebas nos rostos e torsos de crianças e adultos, disputadas por moscas que, em algumas imagens, podem ser a própria câmera. Uma colher de açúcar servida a um garoto pequeno pela sua mãe, que nos informa que o feijão é tão ruim que não seria má idéia carregá-lo numa espingarda, como bala. Acompanhamos a longa caminhada de duas mães que voltam para casa sem leite, pois o estoque havia acabado na venda. Dois cortes, em especial, me chamaram a atenção num documentário sobre miséria, e esses dois cortes vêm no preciso momento que personagens cospem no chão.

Cria-se, portanto, uma narrativa minimamente dramática da escola corte seco e cresce no espectador o desconforto não tanto pela dureza do tema, mas pela sensação de a linguagem proposta que ganha contornos de um reality show do inferno. Nesse sentido, o filme é limitado, um cinema pobre, e que isso não seja confundido com a condição social dos personagens. Em momento algum Garapa nos lembra que as mazelas de uma sociedade podem, talvez, estar ligadas à total falta de educação, falta esta que leva à falta de cidadania. É a fome e a miserabilidade por elas mesmas, e só, algo que do ponto de vista da informação não acrescenta zero.

Um pai de família, por exemplo, é alcoólatra e capaz de vender as portas e janelas da casa, chamando a mulher de 'puta'. Ele talvez tenha sífilis, assunto discutido longamente durante uma visita da sua esposa (com três filhas pequenas) a uma assistente social. O papel do governo (Lula), cuja logomarca abre o filme ("Governo Federal – Um Brasil de Todos") ganha destaque com pelo menos um depoimento onde fica claro que o Fome Zero é o único auxílio que tantas famílias têm na sua sub-existência, e que estariam muito pior sem o projeto.

Ainda mais problemático o filme torna-se quando essas tragédias de vidas privadas e destituídas de cidadania são interrompidas pela voz de Padilha (na locação, atrás da câmera) fazendo uma pergunta ao seu personagem do tipo "o senhor quer ter mais um filho?". Acreditamos que o cinema é bem mais livre e rico de possibilidades do que Garapa poderá levar alguns espectadores a crer que ele é, um cinema que usa as amplas aberturas do meio para falar sobre a condição humana sem necessariamente usar a imagem chapada pelo que ela é, e nada mais além disso.

Sobre cinema, e vendo as imagens em preto e branco ultra-granulado (clichê pós-moderno da realidade dura, preset de software de edição de uma imagem 'crua' numa época da cine-tecnologia que permite a um adolescente filmar em alta definição colorida), temos os sons efetivamente 'mono' do filme (algo destacado por Padilha na sua apresentação do filme no Cine Star 7, em Potsdamer Platz, onde o filme passou ontem à tarde), e ainda um letreiro final mudo que impõe silêncio sepulcral auto-solene na sala. Juntando tudo isso, é impossível não resgatar um pouco da história do próprio cinema brasileiro através do manifesto de Glauber Rocha, "A Estética da Fome".

Naquele manifesto, a idéia de fome não existe apenas na falta de comida, mas na pobreza como um todo, e seguia para refletir como retratar essa pobreza em imagens de um cinema possível para com o tema, para a natureza humana.

Eu perguntei a Padilha ao final da sessão sobre como ele teria chegado àquele conceito de crueza usado em Garapa, e se ele pensou na reflexão de Rocha sobre um cinema cuja imagem estaria à altura da identidade cultural de um terceiro mundo que precisa ser retratado por nós mesmos.

Ele respondeu: "Eu nunca li o manifesto de Glauber. Eu não me interesso por manifestos, não acho que faz parte do meu trabalho dizer a outros colegas cineastas como se deve filmar, estabelecer regras, não obstante o fato de eu respeitar muito Glauber. O conceito desse filme foi faze-lo da maneira mais simples possível, subtraindo tudo o que não é essencial ao processo, como cor, um som cru que sai apenas da tela, nenhum efeito digital. Tudo isso reflete a ausência de tudo que aflige essas pessoas, o que explica o conceito por trás desse filme."

Curtas

PANTERA – Uma das coisas boas de um festival grande como Berlim é poder "dar uma olhada" na coletiva de imprensa de um filme que você não viu, como foi o caso do encontro de Steve Martin e equipe do novo filme da Pantera Cor de Rosa, que estréia nessa próxima semana no Brasil, e que exibiu fora de competição na Berlinale, ontem. Certamente uma das coletivas mais divertidas do festival, Martin, que é afiadíssimo e muito engraçado, foi informado por um jornalista que o filme deixou a sessão de imprensa às gargalhadas, algo raro em tratando-se de "críticos". Ele reagiu dizendo: "eu sempre recebi crítcas negativas ao longo de toda a minha carreira, seja como comediante stand-up ou no cinema. Um dos meus filmes de impacto mais duradouro, O Panaca (The Jerk) foi universalmente destruído no lançamento. E críticos, claro, riem muito, mesmo não achando graça nenhuma".


RECORDE – A Berlinale chega ao final com recorde de público, um feito e tanto considerando que são 59 anos de história. Já na metade do festival, na quarta-feira passada, o Festival de Berlim havia contabilizado um público de 270 mil espectadores, 30 mil a mais do que o total do ano passado (230 mil). Os números apontam para uma imagem forte de cinefilia em Berlim, cidade ainda dotada de belos cinemas antigos de rua como o Kino International e o Urânia, e onde mesmo os multiplexes oferecem salas enormes com telas gigantescas. Quem sai por cima é o diretor da Berlinale, Dieter Kosslick, que, segundo a revista Variety, acaba de renovar seu contrato até abril de 2013.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A telona por trás das cortinas

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

Com baixa substancial na temperatura em Berlim, num clima gelado de inverno e neve, o Festival se encaminha para a reta final com um nível geral apenas razoável na mostra competitiva. Para quem cobre, fica a certeza de que, para tentar novas descobertas nas mostras paralelas Panorama e Forum, escolhas precisam ser feitas com tanta coisa sendo projetada em horários que batem, o que significa sair das projeções principais. Fica o temor de que aquele filme que você não viu sagre-se o grande ganhador do Urso de Ouro. Esse ano, uma das alternativas mais luxuosas para se perder na Berlinale é a Retrospektive 70mm.

São 26 filmes, entre cópias de arquivo e restauradas, de clássicos do cinema dos anos 50, 60 e 70, filmados em negativo 65mm ou 70mm. O formato surgiu do desejo de a indústria do cinema oferecer ao espectador uma experiência de imagem e som que só poderia ser desfrutada numa grande sala de cinema dotada de tela gigante, ataque direto ao avanço da televisão numa época que os filmes perderam monopólio da imagem em movimento. Diretores tinham ao seu dispor uma definição de imagem, e capacidade sonora inigualável até mesmo hoje, com toda a tecnologia digital atualmente disponível.

As apresentações em 70mm, oferecidas nos principais cinemas das grandes cidades do mundo (no Recife, o extinto Veneza projetou o formato, no Rio, o Metro Boa Vista, em São Paulo, o Comodoro, para citar alguns poucos) não eram apenas o filme, mas um ritual. As versões 70mm vinham com música de entrada, e durante cinco minutos as cortinas permaneciam fechadas, só abrindo no início do filme em si, projetados com imagem de clareza impressionante e seis canais de som magnético.

Normalmente longos, os filmes tinham um intervalo (intermission) que acontece no meio da projeção, perfeitamente previsto pelos realizadores num ponto dramático importante do filme, quando as cortinas fecham mais uma vez.

Em Berlim, são 26 filmes, apresentados precisamente como os mesmos foram mostrados nas suas épocas. As duas salas escolhidas pelo festival para passar a mostra são o Kino International, inaugurado em 1963 na Karl Marx Ale, em Berlim Oriental, a principal sala da Alemanha comunista, e onde os clássicos soviéticos da época foram lançados em 70mm, nos processos Sovscope ou Kino Panorama, concorrentes (como tudo nos tempos da Guerra Fria) dos sistemas americanos Super Panavision 70 ou Super Technirama 70. A outra sala é um cinema grande de multiplex na Potsdamer Platz, o Cine Star 8, especialmente equipado para a mostra.

O curador da retrospectiva, Dr. Rainer Rother (presente em todas as sessões, imagina-se por puro deleite de ver os filmes com platéias que têm lotado todos os horários), contou com o apoio dos estúdios 20th Century Fox e Columbia Pictures, em Los Angeles, que forneceram copias restauradas recentemente de Patton (1970), de Franklin J. Schaffner, A Noviça Rebelde (1965), de Robert Wise, e Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz, ou Lawrence da Arábia (1962), de David Lean, exibidos em cópias cristalinas com uma imagem que chega a ser desconcertante.

Algumas outras cópias vieram do que Rother chama de "arquivos amigos espalhados pelo mundo", como cinematecas na Suécia, Noruega e Austrália, onde foi localizada uma cópia de Ben Hur (1959), de William Wyler, que passou sábado à noite numa sessão memorável apresentada por Catherine Wyler, filha do diretor, já falecido.

2001 – Uma Oidsséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, experiência de cinefilia radical (especialmente em 70mm) é uma das sessões mais esperadas, neste sábado. Também foram programados clássicos soviéticos como a bem sucedida adaptação para Guerra e Paz, de Leon Tolstoy, dirigido por Sergej Bondartschuk, tentativa bem sucedida dos russos em fazer o épico histórico (e nacionalista) mais espetacular de todo o cinema.

A Retrospectiva tem atraído fãs do formato de todo o mundo, como Daneil Kasman, critico do site The Auteurs, de Nova York, presente na sessão de Crepúsculo de Uma Raça, de John Ford, segunda à noite. "É uma chance tão rara, mesmo em Nova York esses filmes não passam mais, e as grandes salas, como em todo o mundo, fecharam. Poder ver um Ford em 70mm, e aqui no Kino International, é de fato uma experiência religiosa".

Sentado e se sentindo pequeno diante da tela gigante, o som de uma música nostálgica em seis canais e imagens clássicas pode levar o espectador a pensar sobre como a percepção do cinema está tão atrelada à maneira que vemos os filmes. O formato, abandonado pela indústria que preferiu filmar em 35mm e ampliar os filmes para 70mm e economizar dinheiro é hoje uma relíquia nostálgica do ato de ir ao cinema, lembrada pelos mais velhos e que desperta curiosidade nos mais jovens, num mundo onde o cinema já é sinônimo de telas LCD, alta definição, downloads e iPods.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Frears e Pfeiffer juntos novamente em um drama de época

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

O cineasta inglês Stephen Frears apresentou ontem Chéri (2009, Inglaterra/EUA/França), uma apresentação da Miaramax para o tipo de mercado de bom gosto e alguma sofisticação que existe raramente nos multiplex. O filme marca uma volta de Frears a uma parceria com Michelle Pfeiffer, trabalharam juntos no bom As Ligações Perigosas nos idos de 1988. Esse novo projeto (na competição) também traz de volta Christopher Hampton, roteirista que adaptou As Ligações Perigosas (do original de Choderlos de Laclos), agora trazendo os escritos da francesa Colette.


O filme é um desses dramas de época feitos com leveza e competência, os atores estão à vontade com o texto ferino, composto pelos dramas internos que levam as mulheres à mais ácida produção verbal. Se passa no mundo das cortesãs, na Paris da Belle Epoque, e Pfeiffer é Lea de Lonval, uma das mais conhecidas meretrizes de monarcas e homens de grande poder. São mulheres que se prostituem com estilo, muitas vezes secando os cofres de seus homens escravizados por elas emotiva e sexualmente. São fascinantes as cortesãs dessa época.

Chama a atenção que Pfeiffer, símbolo sexual e estrela de cinema nos anos 80 com suas maçãs de rosto perfeitas, assume o passar dos seus anos interpretando uma bela mulher que viveu da sua sensualidade, e que agora percebe a possibilidade da velhice e da aposentadoria. Talvez por isso que ela envolve-se com a carne jovem de Cheri, apelido que ela mesma deu para o rapaz quando ele tinha seis anos de idade, o filho de uma velha amiga (e também cortesã que virou maliciosa matrona), interpretada por uma esperta Kathy Bates.

Frears filma com prazer clássico em tela larga e cores perfeitamente pastel (o ás Darius Khondji garante o foco), as faíscas entre as fêmeas estalam sempre e logo estaremos envolvidos com a clássica história de amor que terá de acabar quando ele assumir uma mulher oficial, a meiga Edmée (Felicity Jones), por sua vez filha de uma outra cortesã.

É tudo muito bem feito, um passatempo de real interesse para uma sessão seguida de chá, os venenos femininos salpicam constantemente no espectador com grande interesse. Obviamente que há amargura na história de mulheres que procuram o amor sem permissão, e que tentam desesperadamente segurar a beleza que esvai-se (ou que já sumiu por completo. Que bom que a imagem final registre tão precisamente o rosto de uma mulher.

Singularidades de um cineasta centenário

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

Manoel de Oliveira apresentou na mostra Berlinale Special (fora de competição) mais uma jóia da sua coleção de cinema. Os 64 minutos de Singularidades de Uma Rapariga Loira representam esta que poderá confirmar-se como uma das melhores horas projetadas do ano, união um pouco acima do perfeito entre as sensibilidades da literatura e das imagens. É uma adaptação bastante livre (no sentido mais leve possível da palavra) da obra de Eça de Queiroz, num filme moderno sobre um mundo e uma moral do passado que, de alguma forma, casam perfeitamente com uma idéia bela de Portugal, ou da alma portuguesa. Esse aspecto de algo tão simples na sua sofisticação, e tão moderno no seu classicismo resultam numa preciosidade.

Peculiaridades de Uma Rapariga Loira faz belo par com o novo filme da francesa Catherine Breillat, Barbe Bleu (Barba Azul), exibido na paralela Panorama. Ambos são adaptações de clássicos, feitos com enorme simplicidade e com escritas autorais, identificáveis do ponto de vista da assinatura pessoal.

Lindamente composto por enquadramentos precisos (a fotografia de Sabine Lancelin é especial), Oliveira nos dá a história de um homem (Ricardo Trêpa) que decide contar algo que lhe aflige a uma estranha (Leonor Silveira), e isso é feito nesta que é uma das grandes convenções do cinema, o trem.

Num palavreado encantador fiel aos escritos de Queiroz, ele narra a sua história com a entrada de flashbacks que, fiéis ao espírito do próprio filme, conseguem ser tão rigorosos quanto imprevisíveis nas escolhas do que mostrar. Nos apresentam o mundo, a lógica e a ética social e pessoal de um Portugal antigo, mas com a ação situada no presente. Uma narração que informa da chegada de alguém no Cabo Verde num vôo da Tap de alguma forma soa como se tivesse sido num antigo vapor.

Nas lembranças angustiadas do personagem, ele, que trabalha na loja do tio, observa fascinado pela janela uma jovem loira do outro lado da rua, por quem apaixona-se. A linda rapariga loira (Catarina Wallenstein) nos é apresentada por Oliveira como uma visão perfeita da beleza, e sua imagem traduz a descrição mais apaixonada possível que um pretendente romântico seria capaz de fazer dela. Detalhe especial da sua figura é um leque oriental, que sempre tem na mão, objeto que registra como notável fetiche estético.

O homem apaixonado, ao pedir a mão da mulher em casamento, terá de enfrentar o pensamento do tio, que não acredita que o sobrinho deverá casar-se por não ter ainda condições financeiras para arcar com uma família. Uma série de provas morais e éticas serão superadas, o que inclui pelo menos uma surpresa em relação à personalidade dessa mulher real totalmente idealizada pelo senso exacerbado de romance do personagem.

É um filme extremamente culto, repleto de detalhes fascinantes que estimulam a imaginação através da imagem pura do cinema. A perda de um chapéu segue a falência financeira do nosso personagem, as pinturas e azulejos portugueses em cena, uma seqüência elegante em som e imagem num recital de harpa, assim como alguns dos elementos mais enigmáticos do filme, como o seu plano final, estímulo à discussão e à imaginação.

Impossível não citar também o humor que pontua tudo, uma leveza que nos leva a crer que o Sr. Oliveira, 100 anos de idade, deve ser, ele mesmo, um personagem e tanto, e vai aqui um destaque especial para a forma como ele refere-se (em imagens) à sua personagem feminina. Tudo parece resultar num seguro galanteio de tempos antigos, e que funciona muito bem para os que suspeitam ser a mulher algo de indizível na sua essência, daí ser melhor apenas filmá-las.

O que impressiona na obra de Manoel de Oliveira não é apenas a preciosa nota de rodapé de que este realizador tem 100 anos, algo que por si só beira o metafísico, mas o outro fato de ele ter filmado Peculiaridades de Uma Rapariga Loira naquele mesmo mês. Ou seja, estamos no início de fevereiro, no Festival de Berlim, e o filme, rodado dois meses atrás, já está finalizado, exibido e é lindo. Há ainda uma outra informação que beira o alarmante: o próximo filme de Oliveira – O Estranho Caso de Angélica -, que ainda será filmado em tempo para Cannes (maio)...

Uma das coisas boas de Berlim é que coletivas de filmes pequenos e autorais como este têm o tom de encontros com a imprensa. No caso de Oliveira, acompanhado de seu elenco e produtores, a coisa teve o clima de um sarau. Seus colaboradores depuseram sobre o estilo do diretor, e todos parecem concordar que o filme já existe antes mesmo de ser filmado, e que todo detalhe conta.
O realizador falou do seu interesse por uma história que vê como atual. "A situação entre o tio e o sobrinho, que envolve créditos e empréstimos, é exatamente o que se passa actualmente na chamada crise financeira. O meu personagem é um homem sem crédito, fonte dos seus problemas."

Sobre seu uso esparso de música, lembrou que muitas vezes "a música é não pôr musica". "Da Vinci dizia que a musica é a constituição do invisível, e ela reflete aspectos da alma, do espírito. Naturalmente, a conversa foi para o tempo e a idade. "Idade e felicidade dependem de forças obscuras, e dependemos delas. Ao contrário dos políticos, não somos senhores do futuro e, com isso, experiência de vida não é conhecimento, é sabedoria."

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

"Amerindie" adulto e franco

KLEBER MENDONÇA FILHO

Passou na competição ontem no Festival de Berlim o bastante razoável The Messenger (O Mensageiro), um amerindie (filme americano com toque 'independente') que chega à Alemanha da safra mostrada no último Festival de Sundance. O filme do diretor estreante Oren Moverman (roteirista de Não Estou Lá, de Todda Haynes) enfoca um soldado americano que volta ferido do Iraque, e assume a função de notificar fria e objetivamente pais, maridos e esposas que seus entes queridos morreram. Possibilidades de prêmio não são remotas, especialmente para Woody Harrelson, que reprocessa muito bem décadas de clichês do militar duro americano.

O personagem principal é Will (Ben Foster), que volta do Iraque para a namorada que já não mais o quer, início do conceito de más notícias que o filme trabalha. Já triste, recebe a missão de, antes de dar baixa do exército, irá trabalhar com o oficial Tony Stone (Harrelson), um tipo hedonista que tenta administrar o alcoolismo enquanto segue rígidas regras de conduta nas notificações pessoais feitas às famílias dos soldados mortos. Eles vão de casa em casa anunciar verbalmente a morte de um parente, informação que soa como um telegrama falado, a humanidade por baixo das regras militares de conduta.

O filme parece claramente bem pesquisado. "Nunca toque na pessoa, por mais que ela desmorone emocionalmente, não faz parte dessa função. A exceção é, claro, se a pessoa tiver um ataque cardíaco. Homens são mais difíceis de lidar, pois eles podem tentar bater em você", diz Stone para o mais jovem.

Inicialmente, The Messenger vai muito bem, com um tom que soa anormalmente adulto para uma produção tipicamente amerindie. Não há música, sexo é tratado com franqueza, e cenas longas parecem mais preocupadas em respeitar os atores/personagens do que apressar tudo para manter uma idéia de ritmo.

Mesmo assim, já no final, percebemos que The Messenger entra na estrutura pré-moldada de "buddy-movie", sub-gênero bem hollywoodiano onde dois homens se tornam os melhores amigos do mundo, e seguimos suas aventuras. A aparição repentina de Steve Buscemi como um pai que recebe más notícias reforça aspecto amerindie e tira o espectador da cena, com a entrada de figura tão típica. A participação de Samantha Morton como uma viúva que envolve-se com o jovem militar desenvolve-se como alívio dramático.

Na coletiva de imprensa, foi o diretor Moverman que começou perguntando o que a critica tinha achado do filme, com respostas geralmente muito positivas. Ele refletiu que The Messenger talvez reflita um momento de transição política nos EUA que marca precisamente as eras Bush/Obama. "Creio que estamos mudando de uma cultura 'reativa' para uma cultura 'reflexiva'.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Rage ficaria melhor na parede de um bar


Curioso como Mammoth é um fracasso dentro de normas convencionais, mas vejam o caso de Rage, filme de Sally Potter, brodagem de Tilda Swinton em Orlando (nossa presidente do júri agora, em Berlim) e que aparece com um curioso descansa tela que está, UAU!, na competição, seleção pouco razoável esta. Será difícil aparecer um outro objeto como esse até o próximo dia 15. De qualquer forma, se é para provocar, faça com estilo, imagino. É também aquele tipo de filme cuja coletiva soa bem mais interessante do que o mesmo.

Exibido em vídeo digital, Rage é uma produção inglesa composta por "talking torsos" de personagens fictícios interpretados por atores, alguns astros e estrelas (Judi Dench uma fashion critic, Steve Buscemi faz Steve Buscemi que se diz fotógrafo, Jude Law um travesti que atende pelo nome Onyx, talvez o aspecto mais rentável para a galera cult). Eles falam uma infinidade de lugares comuns sobre celebridade, fama, moda, imagens, ego e tudo mais, e o fundo é multi-colorido (verde, azul, vermelho, amarelo, laranja, cian) que, felizmente, fica mudando.

A sensação de estarmos vendo alguma fita bruta roubada do E! Entertainment Television (sem música tecno e montagem picada). Sensação persiste durante a enlouquecedora duração (99 minutos), e o filme é sádico o suficiente para ser dividido em capítulos que inevitavelmente arrancam aplausos ao chegar ao anuncio do último. Há uma idéia de que o realizador que nunca é visto (atrás da câmera) é uma criança com o poder de fazer tanta gente louca se abrir na frente da sua lente.

Na melhor das hipóteses, Rage ficaria melhor na parede de um bar, onde o matraqueado seria substituído por música ambiente, a maior fonte de interesse o fundo que troca de cor lindamente. So fucking Boring.

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KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

Mammoth tem recepção morna


Bem menos calorosa foi a recepção de Mammoth, de Lukas Moodysson, o cineasta que atraiu admiradores com os pequenos e muito interessantes Amigas de Colégio (Fucking Amal!), Benvindos (Together) e Para Sempre Lylia (Lylia 4Ever). Ele foi para o lado negro da força com duas obras "experimentais" (na falta de palavra mais educada), A Hole in the Heart e Container, e volta agora com esse paquiderme de tamanho médio, fazendo o titulo Mammoth soar algo de pretensioso.

Gael Garcia Bernal não é o único motivo que fez a palavra "Babel!" ecoar pela multidão de críticos que deixava a sessão no final, uma vez que a comparação é bem óbvia. Como o filme do mexicano Alejandro EuMeIrrito-Iñarritu, esse também tem Bernal, e entrecorta cenas em múltiplos países. Algo de Lost in Translation também é sentido, e durante a primeira metade o espectador assiste com algum interesse.

Há um bom coração de Moodysson para com seus personagens. A personagem médica de Michelle Williams é casada com o empresário de games de Bernal no filme, que viaja para Bangkok a serviço. Eles têm uma filha que desenvolve grande afeição pela empregada filipina da família, que deixou os dois filhos com a avó do outro lado do mundo. Todos são minimamente interessantes, e, pelo menos para mim, isso não deve ser ignorado.

Com nossa dieta diária/semanal de filmes americanos com visão restritíssima de mundo externo (extra-EUA), onde o estrangeiro é sempre visto de cima para baixo, ou sinônimo de vilão fumante, gente estranha ou feia, um panorama humano como o de Moodysson tem o seu valor.

A filha do casal se apega à empregada, e não apenas isso, ela se interessa pela cultura da mulher, inclusive pela língua. A mãe relaciona-se bem com isso, e quando acha problemático, não é uma questão de rejeição ao estrangeiro, mas pelo ciúme natural materno associado à sua vida profissional que lhe deixa pouco tempo para fazer as coisas que deveria fazer com a filha. O personagem de Bernal, diferente do seu parceiro de business, parece realmente interessado pela viagem que está fazendo (o aspecto Lost in Translation do filme), tendo que lidar com questões éticas pessoais ao longo dessa viagem, todas elas do bem.

É claro que ao final o filme desmorona, especialmente (e ironicamente) do ponto de vista emotivo. Afunda num poço de sentimentalismo, o uso de música (Moodysson repete de maneira infeliz no contexto do festival Cat Power e sua canção The Greatest, também usada como tema em Ricky, de Ozon) resvala para o solene no último rolo, piorando tudo. Juntando o tal bom coração, efeito déja vu paralisante e sensação de tempo não muito saudável, logo temos a sensação de estarmos vendo o lento enterro de um simpático elefante. Uma pena.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Tykwer não se esforça muito para usar as múltiplas línguas ao seu favor


Sobre os dois destaques projetados no festival no final de semana, o tom multi-nacional está mais próximo de prêmios ecumênicos. A primeira coisa que pode-se dizer (positivamente) desses dois filmes meio que detona o filme do Tykwer. Por enfocarem redes (ou networks) internacionais, faz total sentido que ouçamos línguas diferentes. Uma das coisas mais belas de se viajar, e estar num tipo de estação espacial como essa, num festival de cinema, é o ataque ora delicado, ora estridente de gente falando múltiplos idiomas.

No cinema, especialmente o americano, isso é emudecido para que o inglês passe como um rolo compressor por cima de todos, beneficiando o público americano que parece tentar mentalizar o mundo como anglo-fônico. O filme de Tykwer não se esforça muito para usar as múltiplas línguas ao seu favor (poderia ser um fator curiosíssimo no filme), adotando a estética de estrangeiros que falam o inglês mais impecavelmente digitado possível, com corretor de texto, sinônimos e antônimos.

Melhor uso disso que vejo como uma ferramenta (alguém aqui viu Um Filme Falado, de Oliveira?) está em Storm e Mammoth. No sábado, passou o primeiro, falado em inglês, alemão e bósnio-croata, filme de aspecto enfadonhamente convencional, mas competente dentro disso, em especial nos meandros de um mundo regido pela política do presente como sendo mais importante do que crimes do passado. Tensões internas não são careta.

As peças do jogo são uma promotora inglesa (Kerry Fox) da corte de Haia, na Holanda, que tenta condenar um general croata por crimes de guerra, nos anos 90. O julgamento vai por água abaixo quando a principal testemunha mente. A chegada de uma segunda testemunha (a romena Ana Maria Marinca, de Quatro Meses Três Semanas e Dois Dias, excelente em três línguas), estuprada na guerra num incidente sangrento, hoje casada e morando em Berlim, transforma intimidações violentas vindas do seu país num desejo de escancarar tudo.

A tensão vem do fato de as revelações trazidas por essa mulher finalmente irem contra a vontade política que prepara o terreno para que a União Européia receba de braços abertos os países da antiga Iugoslávia, sem que lembranças desagradáveis venham pôr isso em risco. Ela terá de respeitar um acordo onde o julgamento deverá focar num outro crime de guerra, de relativa e menor intensidade, e evitar o outro, que ela sofreu com maior. É uma dessas situações absurdas que só a política e a burocracia são capazes de criar, e que ilustram bem um filme sobre a verdade pessoal e a relevância dessa verdade num panorama maior. Bem recebido.

por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Dinamarqueses exploram o vasto mundo cão


Curiosamente, o drama dinamarquês ligeiramente mundo cão Lille Soldat (Pequeno Soldado), da diretora Annette K. Olesen, mantém esse verniz de realismo constante, sem a surpresa do filme anterior. Também em competição, sai perdendo quando visto no contexto de um festival, especialmente após Ricky, onde filmes são vistos como parte de um conjunto. Embora seja cedo ainda, nível geral parece melhor na Berlinale do que nos últimos dois anos.

A personagem principal, Lotte (Trine Dyrholm), mulher dinamarquesa de 30 e poucos anos, acaba de voltar do Iraque, onde trabalhou nas forças de paz. Não é surpreendente que ela seja uma concha vazia, em profunda depressão de algo que certamente não foi leve, o tipo de tom duro que esperamos já preparados de dramas escandinavos.

Mesmo assim, o filme vai revelando o seu interesse. A relação com o pai equilibra certa ternura com o caráter difícil de ambos, ela uma mulher fisicamente forte e algo de masculinizada na sua dor, ele um empresário do transporte de cargas que desdobra suas funções alugando garotas nigerianas para clientes da área, um deles adepto de necrofilia.

A terceira personagem é Lily, a principal garota africana do esquema, que prostitui-se para garantir futuro melhor para a filha, em Lagos. Como motorista e segurança de Lily, Lotte desenvolve relação dúbia com com o pai e com Lily, numa série de ambigüidades interessantes que tentam sobreviver ao tom pesado do todo. É o cinema europeu exaurindo um dos seus temas principais, as diferenças entre gerações, entre ricos e pobres, entre os muitos 'eus' que existem dentro de você mesmo.

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KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

O leitor - um filme sobre toda uma geração alemã



O LEITOR – Passou também ontem em competição O Leitor (The Reader), filme de
Stephen Daldry (Billy Elliot) que já está em exibição no Brasil como parte do pacote Oscar 2009. Na coletiva de imprensa, ontem à tarde, com a presença de Daldry, Kate Winslet, Ralph Fiennes, do jovem ator alemão David Kross e do autor do livro do qual o filme foi adaptado, Bernhard Schlink, Daldry tentou apresentar O Leitor não como "mais um filme sobre o Holocausto, mas sobre toda uma geração alemã que foi impactada pela herança sombria deixada pelos nazistas. "A maioria dos filmes sobre o Holocausto tem o ponto de vista da vítima, e o que me atraiu a essa história é que a personagem é um dos culpados."

Winslet não fugiu de perguntas sobre as cenas de sexo entre ela e Kross. No filme, ela foi integrante da SS num campo de concentração, e relaciona-se com um adolescente de 15 anos nos anos 50, sem que ele saiba do seu passado. "Não é algo que eu goste de fazer, mas faz parte da história. Li o livro seis anos atrás e me vi inspirada pelo amor entre os dois, é uma história de amor. Por isso, quando vejo coerência, eu vou lá e simplesmente faço".

Perguntada sobre a repercussão que esse tipo de cena tem na mídia puritana, Kate comentoiu que "basta você entender que as coisas são assim, o mundo é assim. Uu não leio críticas, entrevistas que eu dei ou matérias sobre celebridade, não temos nada de imprensa na minha casa. Atuar é uma paixão minha, e só é possível exercer isso com a cabeça aberta".

Fiennes explicou que é muito bom poder interpretar a segunda parte de um personagem (ele faz o personagem de Kross mais velho), pois normalmente você, como ator, precisa imaginar, criar, o passado de quem está interpretando. Nesse caso, estava tudo pronto, e ver as cenas com Kross me ajudou muito".

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KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

Um toque mágico no subúrbio


O realizador francês François Ozon está com um filme na competição do Festival de Berlim, chama-se Ricky, e é sobre um bebê. É provável que o leitor venha a descobrir o grande segredo do filme bem antes de Ricky chegar ao Brasil, mas não será pelos escritos do JC. Acreditamos que certas descobertas (apelidados de "spoilers" no jargão da internet) devem ser feitas na sala de cinema, e não na imprensa. Segredos como esse em Ricky são raros, e fazem parte da própria construção do filme, feito por um realizador que parece ter o prazer de testar novos caminhos ao longo da sua carreira.

Ricky é o décimo longa metragem desse realizador de 41 anos. Cada filme de François Ozon divide bastante crítica e público, e o conjunto da obra revela-se uma virtual pesquisa de tons, estilos e atmosferas. Suspeitamos que esse talvez revele-se seu filme mais bem sucedido junto ao público.

Ricky deixou a imprensa por vezes incrédula no que estava vendo, e finalmente encantada com esse filme pequeno que começa como um drama realista ambientado num subúrbio parisiense (apartamento pequeno de classe média baixa). A mãe (Alexandra Lamy) é solteira e operária, a filha de sete anos Lisa (Mélusine Mayance, provavelmente a personagem mais discretamente
forte do filme) é solitária, e vê com dissabor a chegada de um namorado da sua mãe, o espanhol Paco (Sergi Lopez).

A união gera uma gravidez, e logo Lisa terá companhia na forma de um bebê, Ricky, criatura que Ozon filma com a honestidade que bebês merecem, sem precisar carregar no quesito fofura que eles inevitavelmente têm. Também não poupa os detalhes mais sujos que essas coisinhas inevitavelmente produzem, e logo o espectador está totalmente envolvido, especialmente via olhar cético da irmã. Natural e progressivamente, Lisa perde o espaço para o recém chegado Ricky.

Aos poucos, no entanto, Ricky revela-se uma criança especialíssima, e o filme, crônica socialmente realista típica do cinema francês, toma rumos inesperados que ora lembram David Cronenberg, ora Walt Disney, com pitadas de uma fábula de Hans Christian Andersen.

Reações dos pais, de Lisa e, finalmente, da sociedade como um todo, permanecem totalmente criveis, e Ricky termina passando como o relato verdadeiro e bem narrado de uma história fantástica publicada num jornal sensacionalista, ou seja, algo realmente inusitado.

O filme é tão equilibrado na sua união de cinemas diferentes que o espectador tem a clara sensação de que uma certa idéia de Hollywood (o cinema fantástico, os efeitos especiais digitais) foi morar num apartamento cinzento de um subúrbio trabalhador francês.

Há algo de muito forte nessa mistura, pois Ozon lida aqui com a questão da identidade cultural de todo um cinema. O mercado nos ensinou a ver (e a esperar) que certas coisas simplesmente acontecem num determinado tipo de filme, mas que nunca ocorrem em outros tipos de cinema. Por mais que E.T. e Poltergeist, ambos da fábrica Spielberg, tenham nas suas bases um certo realismo, suburbano seus desdobramentos fazem parte de uma cultura de cinema
(a americana) onde o fantástico já é esperado. Na verdade, é praticamente a norma.

Ozon quebra isso lindamente com o seu Ricky de dentro de uma idéia de estabelecida cinema francês. Sobra ainda um final inspirado que poderá nos levar em direção a um diretor que é capaz de deixar abertas portas para a visão emotiva de mundo apenas possível dentro do olhar de uma criança. Super bom.

Ontem, Ozon recebeu a reportagem do JC para uma entrevista no hotel Marriott, em Potsdamer Platz, onde nos falou sobre seu interesse em investigar diferentes gêneros. "Eu não escolho filmes tão diferentes entre si de maneira consciente, mas talvez escolha detalhes desses filmes seguindo instintos meus. E acho que alguns desses instintos são ligeiramente
perversos, não tenho nenhum problema em afirmar isso!"

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KLEBER MENDONÇA FILHO
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cinema alemão vive dias de ouro


O 59o. Festival Internacional de Berlim começou ontem sob dois fatores particulares à Alemanha. Lembranças da queda do Muro de Berlim, que em 2009 completa 20 anos, estão prometidas para todo o festival, e a comemoração de números excelentes para produções locais com a conquista de 27% do mercado de cinema. Ao longo do último ano, 129 milhões de espectadores foram aos kinos alemães. Para combinar, o filme de abertura, The International, do alemão Tom Tykwer, é uma produção multinacional, com dinheiro americano e germânico, ironicamente um filme onde os vilões são banqueiros.

Esse leve divertimento em formato de thriller conspiratório tem um aspecto curiosamente factual. Obviamente, Tykwer, que vem trabalhando no projeto há mais de quatro anos, explicou na coletiva de imprensa que tudo não passa de uma coincidência se o filme nos remete à crise financeira mundial originada na questão do crédito, fator claro e evidente já no início da projeção. "A crise é catastrófica, claro, mas para tentar tirar algo de positivo dela, talvez o público de cinema esteja mais ciente sobre os caminhos do poder no mundo de hoje", ponderou.

No filme, guerras e terrorismo são financiados por uma instituição financeira inescrupulosa com sede em Luxemburgo que banca guerras e o terrorismo. O modelo de negócio deles parece consistente com o do mundo real, que é negociar (ou fornecer crédito) para quem puder pagar, estimulando pequenas guerras e grandes conflitos. Os que tentam enfrentá-los, morrem misteriosamente em acidentes e assassinatos que os grandes poderes não tem muito interesse em esclarecer.

Até que entra o herói da história, um policial inglês (Clive Owen) trabalhando para a Interpol que acredita em fazer o bem para a humanidade, aliado sem nenhum motivo forte o suficiente a Naomi Watts, exceto talvez pela idéia de que os dois fazem um bom par. (química ausente entre os dois, aliás) Ela trabalha na justiça em Nova Iorque, investigando venda de armas no exterior, e o papel de Watts resulta no tipo de trabalho que atores, assim como os banqueiros do filme, fazem estritamente pelo dinheiro.

The International assobia e olha para cima como se a franquia A Identidade Bourne não existisse, talvez pelo fato de aqueles filmes de fato funcionarem bem como exercícios de cinema de gênero, atualizando a idéia de "thriller de espionagem". Nesse sentido, Tykwer parece levar cada uma das suas cenas como coisa séria, sem que ninguém tenha lhe alertado que o material é nada mais do que uma fórmula já tão gasta. Precisaria de alguém com visão, humor e até mesmo um pouco de saudável desdém para dar alguma energia a esse tipo de coisa.

Há uma cena, no entanto, digna de nota, um (improvável) tiroteiro no Museu Guggenheim de Nova York que poderá deixar alguns espectadores aflitos sobre a integridade física do acervo e, em especial, da arquitetura de Frank Lloyd Wright.

Tykwer, que firmou-se na Alemanha com filmes pequenos (Corra Lola Corra é o mais conhecido), entrou de cabeça em euro-produções faladas em inglês (Paraíso, O Perfume), e agora chega a The International, um filme realmente internacional. Faz o tipo de cinema consumista altamente industrializado que esperaríamos de um cineasta germânico globalizado do ano 2000, e esse seu primeiro produto de estúdio (Columbia/Sony) filmado em Berlim, Istanbul, Lyon, Nova York, Luxemburgo e Milão resulta num passatempo descartável que, de qualquer forma, poderá ter carreira comercial ok.

SUCESSOS - The International será o próximo grande lançamento alemão nas salas do país (12 de fevereiro), e deverá dar continuidade ao bom momento da produção local. Sucessos como Der Baader-Meinhof Komplex (indicado ao Oscar 2009) e o recente Keinohrhasen (Coelho Sem Orelhas), uma comédia, (quase cinco milhões de espectadores, 50 milhões de euros nas bilheterias), ajudaram o cinema alemão a chegar à maior porcentagem de ocupação das salas nacionais contra o produto de Hollywood desde 1991, número de difícil alcance no Brasil.

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KLEBER MENDONÇA FILHO
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Kleber Mendonça Filho no Berlinale 2009


A "Berlinale", ou o Festival Internacional de Cinema da Berlim, começa hoje à noite, com a estréia mundial do novo filme do cineasta alemão Tom Tykwer (Corra Lola Corra, O Perfume), The International, exibido fora de competição. Até o próximo dia 15, o cinema mundial ganha uma das suas principais vitrines nessa feira gigante de imagens que, em diferentes mostras, focos e seções, traça perfil da produção cinematográfica atual em suas tendências e formatos. Berlim acontece na parte final do inverno gelado na Europa e três meses antes de Cannes mostrar a sua própria versão do cinema no auge da primavera. Pelo terceiro ano, o JC traz cobertura exclusiva de Berlim, com apoio do Consulado Alemão no Recife e Centro Cultural Brasil Alemanha.

Um ano depois que Berlim deu o seu Urso de Ouro controvertido ao brasileiro José Padilha por Tropa de Elite (e dez anos antes havia sido Walter Salles, por Central do Brasil), a atriz britânica Tilda Swinton assume a presidência do júri. Como geralmente ocorre no mundo dos grandes festivais, há uma cadeira musical nos bastidores, pois Swinton esteve ano passado em Berlim como atriz com o filme (pouco visto desde então) Julia, de Erick Zoncka. Além disso, Swinton é veterana em Berlim desde a época de Derek Jarman, atriz que transita entre o cinema europeu e o Hollywoodiano, ganhou inclusive o Oscar ano passado de coadjuvante pelo filme Clayton.

Costa Gavras, que o Cine PE anunciou há pouco como seu convidado especial na edição esse ano, foi o presidente do júri ano passado em Berlim, e volta com a gentileza de exibir seu filme novo na noite de encerramento, Éden a L'Ouest. O filme estréia na França na próxima semana, e foi também anunciado como atração de abertura do festival pernambucano.

O próprio Padilha também está de volta, desta vez com o documentário Garapa, na seção Panorama, que também selecionou o thriller brasileiro feito com R$ 80 mil, Vingança, de Paulo Pons, lançado no último Festival de Gramado. Outra presença brasileira é o cineasta pernambucano Tião, que chega a Berlim domingo depois de mostrar seu filme Muro no festival de Clermont Ferrand, na França, o maior do mundo para o formato curta metragem. Em Berlin, Tião foi selecionado para o Talent Campus, onde irá participar de encontros e palestras para jovens artistas de todo o mundo.

Esse ano, a competição oficial anuncia uma série de filmes que , como sempre, mistura nomes de peso com referência autoral - Stephen Frears exibe Cheri, com Michelle Pfeiffer, com quem trabalhou há 20 anos em Ligações Perigosas, François Ozon (Swimming Pool, Sob a Areia) mostra Ricky, o sueco Lukas Moodysson (Amigas de Colégio) vem com Mammoth, com Gael Garcia Bernal - e nomes menos conhecidos pinçados do cinema mundial. Manoel de Oliveira, aos 100 anos, apresenta seu novo, Singularidades de uma Rapariga Loura (Portugal/França), outra sessão obrigatória.

Observando a programação, não há esse ano o carnaval de grandes produções hollywoodianas que tem feito de Berlim e Cannes plataformas de lançamento ruidosas, como a pré mundial de 300, há dois anos. Desta vez, nada mais do que o segundo filme da franquia ressuscitada de A Pantera Cor de Rosa, com Steve Martin, o que não deixa de decepcionar, de certa forma.

Mas isso nas mostras mais tradicionais, pois Berlim também acontece nas paralelas Panorama, Fórum e Berlinale Special. Embora o tema mostre-se claro num festival desse porte, a Berlinale 2009 não deixa de sublinhar o caráter multi-disciplinar do áudio-visual hoje, e que está a mostra nas dezenas de salas de cinema da fantástica cidade alemã.

Mostras paralelas como The Physicality of Film and the Skin of the Musicians (A Fisicalidade da Película e a Pele dos Músicos), que há quatro anos investiga as relações cada vez mais abertas entre artistas e formatos de realização, deverá ocupar não apenas cinemas, mas galerias da seção Forum, que irá exibir o curta Triangulum, dos brasileiros Gustavo Jahn, Melissa Dullius, e do francês Michel Balagué. O filme pode ser visto como perfeito representante desse aspecto multi-disciplinar, mais sobre o mesmo ao longo da cobertura.

A Berlinale promove também uma retrospectiva espetacular em direção ao cinema do passado no que ele já teve de mais grandioso. 70mm Bigger Than Life (70mm Maior Que a Vida) já é vista como mostra referência no sentido de resgatar o senso de espetáculo que os grandes clássicos do cinema americano, europeu e soviético tinham no sentido de oferecer uma imagem que só a sala de cinema seria capaz de garantir, uma certeza e tanto numa época como a de hoje, onde a tecnologia digital oferece filmes no ônibus, iPod e celular.

Ao longo dos próximos 11 dias, cópias novas encomendadas pela Berlinale de 2001 – Uma Odisséia No Espaço, de Kubrick, Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, Lawrence da Arábia e A Filha de Ryan, de David Lean, serão projetadas para o deleite da cinefilia, chance rara de rever os filmes no formato no qual foram feitos.

O repórter viajou a convite do Consulado da Alemanha no Recife


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KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com