Berlinale aposta alto nos novatos

Primeiros filmes exibidos, Margin call e El premio, de cineastas desconhecidos, não causaram muito barulho nas sessões para a imprensa.
Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial
BERLIM - A 61ª Berlinale começou para valer ontem, com a exibição dos primeiros filmes da Mostra Competitiva e da prestigiada Mostra Panorama. Na primeira, os destaques foram o drama corporativo Margin call, do americano JC Chandor, e El premio, da argentina (radicada no México) Paula Markovitch. Os dois filmes não causaram muito barulho durante as sessões para a imprensa, talvez já demonstrando que a aposta da curadoria em novas caras tenha sido mais arriscada do que parece. Pelo menos é o que se fala nos corredores do Palácio do Festival, principalmente em virtude da ausência de nomes internacionais consagrados.
Margin call conta o caos que se instala numa companhia de investimentos no comecinho da crise econômica americana, em 2008. Um funcionário descobre que a empresa vai afundar. E aí se inicia o corre-corre para salvá-la, ou ao contrário, salvar o dinheiro dos executivos, que tem de ser feito em menos de 24 horas. Basicamente, a história se desenrola entre o pôr do sol e o amanhecer, com os arranha-céus de Nova Iorque como testemunha de uma cidade que tem uma vida à parte.
O diretor e roteirista JC Chandor, que aqui faz seu primeiro filme, tem um passado ligado à publicidade, onde dirigiu algumas dezenas de spots encomendados por grandes corporações. Mas, partindo para o cinema, deixou a propaganda de lado e resolveu criar personagens verdadeiros num ambiente de perigo. De certa maneira, em alguns momentos seu filme lembra, certamente por ter sido filmado em Nova Iorque, o clássico A embriaguez do sucesso, de Alexander Mackendrick, e mais recentemente os dramáticos Wall Street – Poder e cobiça, de Oliver Stone, e Glengarry Glen Ross, de James Foley.
O filme tem um elenco de sonho: os experientes Kevin Spacey, Stanley Tucci e Jeremy Irons estão mais do que bem acompanhados por Paul Bettany, Simon Baker, Zachary Quinto (o novo Dr. Spock), Simon Baker (de The mentalist) e Penn Bradley. No meio de tantos homens, apenas duas mulheres têm participação, Demi Moore e Mary McDonnel. O diretor JC Chandor aproveita cada um dos atores, já que sua história depende basicamente do suporte deles. Com diálogos diretos e bem polidos, Margin call tem ritmo de thriller e segura bem atenção do espectador, no entanto, às vezes o excesso de economês deixa o espectador fora do ar.
Já o drama mexicano-polonês (acreditem, o filme é uma coprodução com a Polônia) El prêmio opera numa clave completamente diferente. Trata-se de uma história semiautobiográfica da diretora Paula Markovitch, que conta como foi sua infância durante a ditadura militar argentina nos anos 1970. Seu filme, como tantos outros da atualidade, é desenvolvido naquela atmosfera rarefeita onde o tempo parece não querer passar, com a câmera colada sempre nos personagens e pouca coisa acontecendo de verdade.
Até que a diretora, também em seu primeiro longa-metragem, se dá bem. A maior sorte dela foi ter encontrado a pequena Paula Galinelli Hertzog, que interpreta a menina Ceci e está em todas as cenas. Ela vive com a mãe, Silvia (Sharon Herrera), numa casinha pobre de frente para uma praia desolada, com os ventos e a chuva atrapalhando a vida delas. Isso, no entanto, não é nada comparado ao verdadeiro terror da mãe, que está foragida e precisa que a família mantenha-se em segredo. Um pequeno texto que Cecília escreve sobre o exército é o momento principal de El prêmio, que PaulaMarkovitch sabe levar com muito sentimento até a belíssima cena final.


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