Irmãos Coen acertam o alvo
Nova adaptação de Bravura indômita abre a 61ª Berlinale e mostra diretores Joel e Ethan em ótima formaErnesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial
BERLIM – Os irmãos Joel, 57 anos, e Ethan Coen, 54 anos, estiveram em Berlim pela última vez em 1998. O filme era o cult O grande Lebowski e tinha como personagem título o ator Jeff Bridges. A trinca reuniu-se novamente em Bravura indômita, cuja sessão de gala abriu ontem a 61ª Berlinale – Festival Internacional de Cinema de Berlin, na Alemanha. Mais uma vez, os irmãos Coen comprovam que o cinema que eles fazem há quase três décadas ainda é um dos melhores em atividade nos Estados Unidos. Não apenas um sucesso de crítica, o filme vem conquistando o coração de milhões de espectadores mundo afora.
Na América do Norte, já ultrapassou a barreira dos US$ 150 milhões. É uma grande soma até mesmo para os blockbusters da temporada, quanto mais para um western, um gênero morto e enterrado, mas que algumas vezes ensaia uma ressurreição. Com suas 10 indicações ao Oscar, Bravura indômita clama a atenção de todos os públicos, inclusive o feminino. O filme estreia hoje em todo o País.
Pesa o fato de o filme ter uma história conhecida e também por ser lembrado como o veículo que possibilitou um Oscar de melhor ator para John Wayne, um dos maiores ícones do cinema ianque de todos os tempos. Assim como o primeiro Bravura indômita, dirigido por Henry Hathaway em 1969, este dos irmãos Coen é uma adaptação da novela homônima de Charles Portis que, inclusive, acaba de ser lançada pela editora Alfaguara.
No final dos anos 1960, a chegada de Bravura Indômita teve um significado muito importante, apesar de o filme não ter se transformado num clássico com o passar dos anos. Mas, alguns historiadores são unânimes em afirmar que o filme tentava levantar o brio do país, muito abalado com o caos no Vietnã e a má impressão que isso causou em todo o mundo. Eles alegam que a história de Portis traz elementos importantes que fazem parte da psiquê do povo americano.
Quem assistir ao filme talvez estranhe o fato de sua personagem principal ser uma garota de 14 anos que empreende uma jornada de vingança para dar cabo ao homem que assassinou o pai dela. Nas mãos de Joel e Ethan Coen, notórios por apresentarem uma visão sempre complexa e pessimista do ser humano – como exemplificam dois dos seus melhores filmes, Gosto de sangue, a estreia deles, e Onde os fracos não têm vez –, Mattie Johnson (a novata Haille Steinfeld, candidata ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) é um anjo da morte, não importa sua carinha angelical. Com muita clareza, o espectador é confrontado aqui com duas forças autóctones da formação dos Estados Unidos: a questão da individualidade e o acerto de contas, transmutado aqui como vingança, que geralmente deixam a justiça de lado.
Na história, a pequena Mattie sai do seu pequeno rancho para buscar o corpo do pai e, no meio do caminho, decide honrar a morte dele. Para isso, vai contratar um agente do governo federal, Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um bêbado fanfarrão que usa de todos os meios possíveis para eliminar os fora da leis do velho Oeste. A primeira vez que Mattie o vê, ele está sendo interrogado por ter cometido uma matança. Naquele momento, Cogburn já mandara 23 homens para a cova. São essas credenciais que fazem com que a garota o contrate e vá com ele, mesmo a contragosto, atrás de Tom Chaney (Josh Brolin), o assassino do seu pai. Outro homem, o xerife Laboeuf (Matt Damon), também está a caça do bandido, acusado de assassinar um senado no
Texas.
Apesar do tom soturno do filme, os irmãos Coen não deixam de lado o humor presente na novela de Charles Portis, talvez mais explorado no filme com John Wayne. Bravura indômita, claro, é um filme mais avançado que o western de Hathaway, e traz elementos formais e estéticos que lhe dão esta grandiosidade.
A princípio, nota-se mais a qualidade dos diálogos e dos atores, que estão em excelente forma, com Jeff Bridges deitando e rolando na pele do agente beberrão. O trabalho para mostrar como eles começam a conquistar um ao outro é muito sutil, o que mostra como a dupla Hailee Steinfeld e Jeffe Bridges teve cumplicidade. Além disso, Bravura indômita encontrou pela mãos dos Coen
uma visão muito digna, ou seja, colocou a história de Portis em seu devido lugar, como um western crepuscular que mostra os últimos estertores de uma visão de mundo de toda uma civilização.


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