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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Shakespeare e Chernobyl provocam barulho na Berlinale


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


Berlim – Na mesma proporção que a temperatura baixou ontem pela manhã, os dois filmes exibidos nas sessões para a imprensa também esquentaram a programação da 61ª Berlinale. E isso aconteceu, antes tarde do que nunca, justamente na metade da competição. No quito dia do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a tela do Berlinale Palast tremeu. Para começar, a coprodução russa-ucraniana Um sábado inocente (V Subbotu), de Alexander Mindadze, atacou os ouvidos da plateia com sua história passada durante o sábado em que o reator da usina de Chernobyl entrou em fissão nuclear. Depois, Ralph Fiennes chegou com sua versão atualizada e furiosa de Corialano (Coriolanus), um espetáculo de sons e imagens em que o ator inglês assumiu estar na frente e atrás das câmeras, realizando o seu primeiro filme como diretor.

Durante a entrevista coletiva, onde estava ao lado do roteirista John Logan, e dos atores Gerard Butler, Jessica Chastain e Vanessa Redgrave, Ralph Fiennes confessou que o projeto resultou da obsessão pela peça e pelo personagem. “Desde que participei da montagem em Londres, há exatos 10 anos, que carregava Coriolano na cabeça e no coração”. Mas a grande vontade dele foi mesmo trazer o texto de Shakespeare, escrito em 1608 e baseado em Plutarco, para os dias atuais. E o clima beligerante na Europa dos últimos 20 anos parece ser o que o levou a criar uma Roma atual, com externas filmadas em Belgrado, na Sérvia.

Ralph Fiennes não teve nenhum pudor em fazer de Coriolano um filme espetacular. As palavras de Shakespeare estão todas lá em pé de igualdade com a ação quase ininterrupta de um filme de guerra. Transplantada para a tela grande, a tragédia do general romano Caio Márcio Coriolano (que ganhou o último nome por conquistar a cidade de Corioli, a principal cidade dos Volscios, seus inimigos) foi pensada por Ralph Fiennes como um filme que interessasse a uma plateia mundial. E esta peça de Shakespeare, em particular, não é lá das mais conhecidas pelo espectadores de cinema, acostumados a eternamente assistirem as mesmas versões de Romeu e Julieta e Hamlet.

A riqueza da peça de Shakespeare e seu questionamento político, principalmente sobre o povo e democracia, fazem de Coriolano um personagempossível de existir nos dias hoje. Sua crítica a falta de coragem e firmeza da população, aliada a seu posicionamento heroico, é comovente. Além disso, ele foi levado pelos outros, ou seja, influenciado pela mãe Volumnia (Vanessa Redgrave), cuja sede de poder precipita sua derrocada como cidadão de Roma, o que acaba em seu banimento e desejo de vingança. Fiennes dá todo o sangue para fazer dele a sua melhor performance no cinema. Seu rosto e a cabeça raspada ensaguentada é uma das imagens mais fortes do festival até agora. Um Urso de Prata de melhor ator não lhe seria injusto.

Voltando à coprodução russa-ucriana Um sábado inocente. Ao contrário de ser um filme que busque a unanimidade, o terceiro longa-metragem do russo Alexander Mindadze é uma boa tentativa de se capturar o clima, não necessariamente o que poderia ter acontecido na noite 26 de julho de 1986, quando ocorreu o acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, perto da cidade de Pripyat. Segundo fontes recentes, cerca de quatro mil pessoas morreram vítimas da radiação.

Apesar de ser um cineasta relativamente iniciante, Alexander Mindze já escreveu mais de 30 roteiros. E foi com imaginação que ele resolveu criar esta “metáfora fílmica” a partir da história de Valery (Anton Shagin), um membro do partido que percebe a dimensão da catástrofe que virá. Sem forças para enfrentar o silêncio da direção da empresa, ele resolve fugir. A primeira coisa que faz é correr para encontrar a namorada, Vera (Svetlana Smirnova), e pegar o primeiro trem. Ele tenta a fuga o tempo todo, mas sempre tem algo da namorada atrapalhando, um salto alto que quebra, um passaporte que não é encontrado, até encontrar os amigos que tocam em festas de casamento. A partir tudo fica mais surrealista.

O primeira coisa que chama a atenção em Um sábado inocente é a direção de fotografia do romeno Oleg Mutu, o mesmo de A morte do sr. Lazarescu, um dos clássicos recentes do seu país. Este encontro do cinema russo com o cinema romeno só poderia resultar no que deu: uma ópera selvagem e fugaz, ondes os personagens correm contra o tempo para viver o aqui e agora. Com a câmera sempre na mão, na importa se a cena for parada ou em desabalada carreira, o certo é que estamos diante de um filme dilacerado e avassalador. Numa das cenas mais loucas, Valery toca bateria e Oleg Mutu segue a música num plano-sequência do tamanho da música. Não há dúvida que este foi o filme da mostra competitiva que mais saiu dos trilhos até agora. Resta agora esperar até o sábado e ver o que a presidente do júri, a atriz ítalo-americana Isabella Rossellini terá a dizer ao lados dos seus colegas.

Tropa


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


José Padilha veio, foi visto e venceu – os aplausos discretos para Tropa de elite 2 no fim da sessão de imprensa, na sexta-feira pela manhã, viraram praticamente uma ovação quando o filme teve sua projeção oficial, à noite. No dia seguinte, Padilha e seus atores – Wagner Moura e Maria Padilha – não pararam de dar entrevistas. Nove entre dez jornalistas estrangeiros consideraram Tropa 2 melhor que o 1.

Excesso de juventude resulta em confusão


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial



Ainda no sábado, a Mostra competitiva recebeu a produção independente americana Yelling to the sky (Gritando para o céu, em tradução livre), que traz a jovem Zoé Kravitz (filha do músico Lenny Kravitz e da atriz Lisa Bonet) como protagonista. Na verdade, o filme todo marca o início de muita gente. Inclusive da diretora Victoria Mahoney, que tem formação de atriz pelo Actor’s Studio e estreia como diretora com esta história autobiográfica. A princípio, o filme lembra a primeira leva do cinema negro realizado no comecinho dos anos 1990, quando Spike Lee e John Singleton fizeram Faça a coisa certa e Os donos da rua, respectivamente. Infelizmente, a comparação para por aqui porque Yelling to the sky não traz muita novidade ao universo de dramas sobre famílias negras disfuncionais, como o último Preciosa que, inclusive, traz a mesma atriz, a gordinha Gabourey Sidibé.

Com uma direção de fotografia bastante estilizada e muita câmera na mão, Victoria Mahoney tenta apreender a realidade que viveu quando era adolescente no bairro do Queens, em Nova Iorque. A encenação, apesar de conhecida, não é problema. Mas o desenho do personagem vivido por Zoé Kravitz, a adolescente Sweetness, é marcado pela incoerência. A princípio quase aluna mosca morta, apenas observando o pai branco alcoólatra e violento e a mãe perturbada mentalmente, ela de repente vira esperta e começa a vender drogas e a bater em todo mundo.

Como se não bastasse isso, a terceira parte investe na recuperação da filha pelo pai, quando a coisa ainda fica ainda mais sem sentido. Apesar disso, as interpretações são boas. O australiano John Clarke, que faz o pai, e Antonique Smith, a outra filha dele, estão superbem. Mas o filme tem problemas e levou algumas pedradas merecidas da crítica.

Choque entre culturas rende bem


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


No sábado, os filmes em competição começaram a mostrar um pouco porque vieram para um festival tão prestigiado como o de Berlim. E de cara quem teve a responsabilidade foram as pratas da casa, cineastas da novíssima geração da Alemanha. Sleeping sickness (Doença do sono) é o terceiro longa-metragem de Ulrich Köhler, e Almanya – Wilkommen Deutschland (Almanya – Bem-vindo à Alemanha), é o trabalho de estreia de Yasemim Samderely. Sem dúvida que o primeiro é um filme que tem o que dizer sobre o mundo de hoje. A partir da experiência de um médico alemão na África, Ulrich Köhler tenta criar algo que exemplifique a piedade dos países ricos pelos pobres do terceiro mundo. Através da vivência deste médico, que está em Camarões coordenando um plano de saúde para conter a epidemia da doença do sono, o espectador tem a chance de não só testemunhar a situação da dependência da África, como também entrar no mundo do personagem.

Ao contar a história de uma maneira pouco usual, quase com duas partes, a partir de uma elipse temporal que o espectador só apreende aos poucos, Köhler surpreendeu a todos. O médico Ebbo (Pierre Bokma, excelente) está preso na África por razões de trabalho e outras imaginárias. Ele começa a sentir-se como um personagem das inúmeras histórias que ouve dos africanos. Uma delas fala sobre um homem que é tragado pela selva e transforma-se num hipopótamo. Com um final aberto, o filme de Köhler recende a um certo parentesco com a obra do tailandês Apichatpong “Joe” Weerasethakul.

Com um tom de comédia de costumes, Almanya conta uma história autobiográfica da irmãs Samderely, Nesrin, a roteirista , e Yesemin, a diretora, relembram a história do avô, o operário turco Hüseyin, que emigrou para Alemanha na leva de estrangeiros que ajudou na reconstrução do país, quando chegou em 1962. Ele foi o 1001º imigrante do país, data que baliza toda a narrativa do filme, que é uma produção bastante ambiciosa e benfeita, com uma reconstituição de época de qualidade.

Mas, a maior crítica que Almanya recebe é sobre o retrato nostálgico e bem intencionada que as irmãs Samderely pintam da relação das duas culturas, que não é tão róseo quanto elas imaginam. Não é preciso saber muito sobre a história recente da Alemanha para saber que os turcos,imigrantes naturalizados e os nascidos no país, ainda precisam conquistar muito espaços para se sentirem senhores da própria pátria. Apesar de não convencer neste aspecto, digamos, mais político, o filme esbanja criatividade, principalmente na maneira como a volta ao passado é solicitada, como também na ótima trilha sonora. (E.B.)

Veteranos põem a mão no 3D


Wim Wenders fez filme deslumbrante sobre Pina Bausch, Werner Herzog levou seu Cave of forgotten dreams

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


Berlim – A apresentação de três filmes em 3D é uma data que vai ficar na história da Berlinale. O 61º Festival Internacional de Cinema de Berlim apostou todas as fichas este ano: nos novos cineastas - e nos novos formatos, afinal o 3D é novo de novo. Mas foram os velhos cineastas – ou
seria melhor dizer veteranos? - que dominaram o dia de ontem. Berlim amanheceu bonita, com um pouquinho de neve e uma temperatura em torno de 10º.

No Palácio do Festival, na Potsdamer Platz, dois remanescentes do novo cinema alemão, movimento dos anos 1970, foram os responsáveis pelos melhores momentos do festival até agora. Wim Wenders mostrou em primeiríssima mão seu deslumbrante documentário sobre a coreógrafa Pina Bausch, com Pina. E Werner Herzog levou o seu Cave of forgotten dreams, um documentário produzido pela canal de TV History Channel. Ambos os filmes foram exibidos fora da competição, ou seja, sem direito a prêmios.

Na competição, o único representante foi a animação francesa Les contes de la nuit, de Michel Ocelot. Velho conhecido do público brasileiro pelos admiráveis Kirikou e a feiticeira e As aventuras de Azur e Asmar. Neste seu novo trabalho, Ocelot foi prejudicado porque seu estilo de animação perde no 3D. Como seus desenhos dependem do jogo de luz e sombra, as silhuetas não
adquirem volume e ficam chapadas. E isso atrapalha a fruição das seis histórias que ele desenvolve aqui, a partir do encontro entre um casal de adolescentes e um mágico do cinema. Das seis histórias, todas passadas em lugares exóticos, como o Caribe, o Tibete e a África, apenas uma não funciona muito bem.

Com Wim Wenders e seu companheiro de geração Werner Herzog, cineastas acima de qualquer suspeita, espera-se agora uma nova era do 3D. Pelo menos alguma coisa muito interessante foi vista em Pina e Cave of the Forgotten Dreams. Em Pina principalmente, porque o trabalho técnico proposto por Wenders foi bem elaborado e demandou um tempo bom de realização. Decerto que a memória e o trabalho da coreógrafa, que muita gente conhece depois de sua
participação em Fale com ela, de Pedro Almodóvar, por si só já garante um belo filme. Mas Wenders se esforça muito para usar da criatividade na maneira de captar as imagens no processo estereoscópico. Em muitos momentos, ele consegue vislumbrar o que a técnica pode oferecer. Como documentário, ele se fixa nas coreografias de Pina Bausch - como Café Müller e A sagraçao da primavera, por exemplo, e entrevistas com os bailarinos que conviveram com a coreógrafa, que morreu em 2009.

Assim como Wenders, Herzog utiliza o 3D com muita habilidade no documentário Cave of forgotten dreams, que mostra pela primeira vez as imagens rupestres da caverna de Chauvet, que permaneceu fechada por mais de 20 milhões de anos e só foi aberta em 1994. No seu peculiar estilo de documentarista, Herzog desce às profundezas da caverna paleolítica para nos encantar com as inscrições que os neandertais deixaram nas suas paredes. Com um impressionante uso de luzes dentro da caverna, Herzog faz um relato fascinante sobre as pinturas dos animais, como cavalos, principalmente (alguns em movimento, já prenunciando o cinema). Com os dois cineastas em forma, não só o 3D foi valorizado, mas a estética do cinema em geral.

Um verão inesquecível em Tomboy


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial



Você já deve ter lido em algum lugar que a filha do casal Brad Pitt-Angelina Jolie gosta de se vestir como menino. Existe uma palavra na língua inglesa para este tipo de comportamento: tomboy. E Tomboy, de Céline Sciamma, que abriu ontem a Mostra Panorama, precisou de duas salas para conter a multidão que se instalou no complexo Cinemaxx, uma das subsidiárias da Berlinale. O segundo filme da cineasta francesa, de 33 anos, é um olhar sobre um verão na vida de Laure (Zoé Heran), que decide se passar por menino durante uma temporada. Ela chega com a família, os pais e outra irmã, para viver num novo bairro, e apresenta-se como Mikael. Além de conviver com todas as crianças da vizinhança, “ele” também provoca sentimentos fortes na menina mais crescidinha da turma.

Céline acredita piamente que a infância é um universo ainda a ser explorado. Há a inocência, mas também a sensualidade e o desabrochar de sentimentos. A maneira como ela prepara as cenas de Tomboy expurga qualquer sentimento de culpa dos personagens. A beleza de Laure-Mikael é etérea, angelical e humana. Ela não arreda pé da convicção de que as crianças são inteligentes, que habitam um mundo com suas próprias leis.

A diretora escolheu um tom para o filme que só os franceses conseguem criar, com ecos de François Truffaut e Louis Malle em alguns momentos. Em outros, revela-se uma diretora de atores de rara sensibilidade, principalmente quando Laura-Mikael está junta da irmã Jeanne (Malonn Lévana) e de Lisa (Jeanne Disson), a amiguinha que é seduzida.

O espectador também é enganado e manipulado pelas aparências, surpreendendo-se quando Laura-Mikael tira a roupa e mostra que não é um menino. Além do mais, fica difícil de acreditar que os pais não estão vendo o menino. Pode até ser a verdade que os pais são acometidos de uma certa cegueira em relação aos filhos. Há sempre uma surpresa para coisas óbvias. A cena em que a mãe (Sophie Cattani) leva a filha para encarar os amigos é constrangedora, mas exemplifica como a família nuclear pensa.

A questão da sexualidade na infância é tabu. Mais ainda com o crescimento de casos de pedofilia. Certamente muitos espectadores poderão ficar um tanto chocados com a ousadia de Céline. Mas é bom dizer logo que o filme não explora voyeuristicamente os corpos das crianças, mas entra no universo delas como poucos cineastas tiveram a coragem.

Tecnicamente, Tomboy é cheio de pequenas sacadas estéticas que dão ao filme um visão muito interessante. A filmagem em digital com câmeras Canon 7D tem um aproveitamento fora do comum, algo perceptível também na sua mobilidade para acompanhar os personagens em longos planos-sequências. Sem dúvida, o filme promete ser um dos hits alternativos deste ano. (E.B.)

Berlinale aposta alto nos novatos


Primeiros filmes exibidos, Margin call e El premio, de cineastas desconhecidos, não causaram muito barulho nas sessões para a imprensa.

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


BERLIM - A 61ª Berlinale começou para valer ontem, com a exibição dos primeiros filmes da Mostra Competitiva e da prestigiada Mostra Panorama. Na primeira, os destaques foram o drama corporativo Margin call, do americano JC Chandor, e El premio, da argentina (radicada no México) Paula Markovitch. Os dois filmes não causaram muito barulho durante as sessões para a imprensa, talvez já demonstrando que a aposta da curadoria em novas caras tenha sido mais arriscada do que parece. Pelo menos é o que se fala nos corredores do Palácio do Festival, principalmente em virtude da ausência de nomes internacionais consagrados.

Margin call conta o caos que se instala numa companhia de investimentos no comecinho da crise econômica americana, em 2008. Um funcionário descobre que a empresa vai afundar. E aí se inicia o corre-corre para salvá-la, ou ao contrário, salvar o dinheiro dos executivos, que tem de ser feito em menos de 24 horas. Basicamente, a história se desenrola entre o pôr do sol e o amanhecer, com os arranha-céus de Nova Iorque como testemunha de uma cidade que tem uma vida à parte.

O diretor e roteirista JC Chandor, que aqui faz seu primeiro filme, tem um passado ligado à publicidade, onde dirigiu algumas dezenas de spots encomendados por grandes corporações. Mas, partindo para o cinema, deixou a propaganda de lado e resolveu criar personagens verdadeiros num ambiente de perigo. De certa maneira, em alguns momentos seu filme lembra, certamente por ter sido filmado em Nova Iorque, o clássico A embriaguez do sucesso, de Alexander Mackendrick, e mais recentemente os dramáticos Wall Street – Poder e cobiça, de Oliver Stone, e Glengarry Glen Ross, de James Foley.

O filme tem um elenco de sonho: os experientes Kevin Spacey, Stanley Tucci e Jeremy Irons estão mais do que bem acompanhados por Paul Bettany, Simon Baker, Zachary Quinto (o novo Dr. Spock), Simon Baker (de The mentalist) e Penn Bradley. No meio de tantos homens, apenas duas mulheres têm participação, Demi Moore e Mary McDonnel. O diretor JC Chandor aproveita cada um dos atores, já que sua história depende basicamente do suporte deles. Com diálogos diretos e bem polidos, Margin call tem ritmo de thriller e segura bem atenção do espectador, no entanto, às vezes o excesso de economês deixa o espectador fora do ar.

Já o drama mexicano-polonês (acreditem, o filme é uma coprodução com a Polônia) El prêmio opera numa clave completamente diferente. Trata-se de uma história semiautobiográfica da diretora Paula Markovitch, que conta como foi sua infância durante a ditadura militar argentina nos anos 1970. Seu filme, como tantos outros da atualidade, é desenvolvido naquela atmosfera rarefeita onde o tempo parece não querer passar, com a câmera colada sempre nos personagens e pouca coisa acontecendo de verdade.

Até que a diretora, também em seu primeiro longa-metragem, se dá bem. A maior sorte dela foi ter encontrado a pequena Paula Galinelli Hertzog, que interpreta a menina Ceci e está em todas as cenas. Ela vive com a mãe, Silvia (Sharon Herrera), numa casinha pobre de frente para uma praia desolada, com os ventos e a chuva atrapalhando a vida delas. Isso, no entanto, não é nada comparado ao verdadeiro terror da mãe, que está foragida e precisa que a família mantenha-se em segredo. Um pequeno texto que Cecília escreve sobre o exército é o momento principal de El prêmio, que PaulaMarkovitch sabe levar com muito sentimento até a belíssima cena final.

Júri da Berlinale ainda espera por Jafar Panahi

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


Pela manhã, a sala de imprensa da 61ª Berlinale teve uma grande movimentação com a coletiva do júri internacional presidido pela atriz ítalo-americana Isabella Rossellini. O principal tema da entrevista foi em torno do cineasta iraniano Jafar Panahi. A cadeira vazia, onde deveria estar sentado o diretor de Offside, foi uma imagem muito eloquente. “Tenho esperança que até o fim do festival ele apareça”, confessou atriz, que está de cabelos curtíssimos e foi muito aplaudida plateia. Entre outras coisas, Isabella disse, respondendo a uma pergunta de um jornalista indiano, que ser filha do cineasta Roberto Rossellini e da atriz Ingrid Bergman foi uma vantagem muito grande, o que lhe permitiu seguir carreira e estar ali naquele momento. Os membros do júri fizeram questão frisar a questão envolvendo Jafar Panahi e como está sendo ferido o direito de liberdade de expressão do cineasta, que foi condenado a seis anos de prisão por um filme que não chegou a fazer, além de ter sido banida por mais 20 de qualquer tentativa de realização. O ator indiano Amir Khan, que o conheceu no Festival de Locarno, em 2002, disse que Panahi era “um homem inteligente” e “um embaixador da cultura iraniana”. “Gostaria muito que ele estivesse”, lamentou o ator.

O diretor canadense Guy Maddin falou que estar num festival é como estudar o cinema. “Uma vez, em Sitges, na Espanha, conheci Coffin Joe (é assim que Zé do Caixão é conhecido internacionalmente). Nunca esqueci ele pegando as coisas com aquelas unhas enormes”, lembrou. O cineasta também falou que a censura poder ter outras faces, como a econômica, se referindo ao fato de o governo canadense ter diminuído as subvenções à realização cinematográfica. Ainda participaram da coletiva a atriz alemã Nina Hoss, a produtora australiana Jan Chapman e a figurista inglesa Sandy Powell.

John Wayne é o grande espelho.


Ator Jeff Bridges declara admiração pelo ator mitológico que fez o primeiro Bravura indômita. Irmãos Coen dizem que filme não é um remake

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


BERLIM – Os irmãos Joel e Ethan Coen e os atores Jeff Bridges, Josh Brolin e Hailee Steinfeld participaram da coletiva de imprensa de Bravura indômita. Chegaram muitos minutos depois de terminada a sessão para a imprensa. A demora para aparecerem motivou até alguns assovios, como se estivéssemos em algum tipo de show e os artistas demorassem a aparecer. Apesar de grosseiro, o engraçadinho que ensaiou o protesto não estava lá tão errado assim. Afinal, a coletiva de imprensa foi um show, isso significando outros
significados da palavra, com o sentido negativo incluso.

Joel disse logo que fazer o filme foi um desafio. Tanto para ele quanto para Ethan, o filme deve ser visto como uma adaptação da novela de Charles Portis, e não como um remake do filme de Henry Hathaway. “Não nos importamos com a versão prévia do livro, apesar de eu ter visto quando era garoto”, explicou Joel. Ele disse, ainda, que o intento deles era conseguir realizar “um filme simples e acessível a todo o público”. Apesar disso, estranhamente eles não se envolveram muito com as perguntas sobre se o filme significaria um revival do gênero.

Mas, tanto os cineastas quanto Jeff Bridges não se cansaram em elogiar o ator John Wayne, que fez o primeiro US Marshall Rooster Cogburn. Para Ethan, John Wayne foi uma figura extraordinária. “Ele era tão icônico que poderia estar no Monte Rushmore”, disse referindo-se ao lugar onde estão esculpidas as efígies dos presidentes americanos George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt. Por outro, Joel disse uma verdade: “Tenho um filho de 16 e ele não sabia quem era John Wayne”, confessou o diretor.

Apesar de não tê-lo conhecido, Jeff Bridges disse que “amava John Wayne”. “Sempre gostei dos filmes dele, principalmente de Rio vermelho. E foi ótimo voltar a trabalhar com os Coen novamente, eles são incríveis”. Bem à vontade, o ator, que concorre novamente ao Oscar de melhor ator, outra vez como um bêbado, falou que temia que ninguém entendesse os diálogos, já que ele falava de uma maneira incompreensível. “Acho que o filme bem poderia ter legendas para ser entendido melhor”, disse para a alegria da plateia de jornalistas que lotou a sala de imprensa do Hotel Hyatt Berlin, na Potsdämer Platz, quase em frente ao Palácio do Festival.

Josh Brolin, que posou de galã a maior parte do tempo e ainda deu uma “cantada” numa jornalista brasileira (que fez por merecer, diga-se), falou que muita gente não lembrava mais da história do filme, por isso foi interessante trabalhar novamente como os Coen (ele foi um dos principais personagens de Onde os fracos não têm vez).

Apesar da presença dos diretores e irmãos e dos atores já veteranos, o rebuliço dos jornalistas era mesmo com a adolescente Haille Steinfeld, 15 anos, que parece mais jovem que a personagem do filme. Perguntada como foi trabalhar com tantos homens, ela disse que a mãe sempre estava com ela nas filmagens. “Todos eles foram figuras de pai para mim”, confessou.

Irmãos Coen acertam o alvo

Nova adaptação de Bravura indômita abre a 61ª Berlinale e mostra diretores Joel e Ethan em ótima forma

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


BERLIM – Os irmãos Joel, 57 anos, e Ethan Coen, 54 anos, estiveram em Berlim pela última vez em 1998. O filme era o cult O grande Lebowski e tinha como personagem título o ator Jeff Bridges. A trinca reuniu-se novamente em Bravura indômita, cuja sessão de gala abriu ontem a 61ª Berlinale – Festival Internacional de Cinema de Berlin, na Alemanha. Mais uma vez, os irmãos Coen comprovam que o cinema que eles fazem há quase três décadas ainda é um dos melhores em atividade nos Estados Unidos. Não apenas um sucesso de crítica, o filme vem conquistando o coração de milhões de espectadores mundo afora.
Na América do Norte, já ultrapassou a barreira dos US$ 150 milhões. É uma grande soma até mesmo para os blockbusters da temporada, quanto mais para um western, um gênero morto e enterrado, mas que algumas vezes ensaia uma ressurreição. Com suas 10 indicações ao Oscar, Bravura indômita clama a atenção de todos os públicos, inclusive o feminino. O filme estreia hoje em todo o País.

Pesa o fato de o filme ter uma história conhecida e também por ser lembrado como o veículo que possibilitou um Oscar de melhor ator para John Wayne, um dos maiores ícones do cinema ianque de todos os tempos. Assim como o primeiro Bravura indômita, dirigido por Henry Hathaway em 1969, este dos irmãos Coen é uma adaptação da novela homônima de Charles Portis que, inclusive, acaba de ser lançada pela editora Alfaguara.

No final dos anos 1960, a chegada de Bravura Indômita teve um significado muito importante, apesar de o filme não ter se transformado num clássico com o passar dos anos. Mas, alguns historiadores são unânimes em afirmar que o filme tentava levantar o brio do país, muito abalado com o caos no Vietnã e a má impressão que isso causou em todo o mundo. Eles alegam que a história de Portis traz elementos importantes que fazem parte da psiquê do povo americano.

Quem assistir ao filme talvez estranhe o fato de sua personagem principal ser uma garota de 14 anos que empreende uma jornada de vingança para dar cabo ao homem que assassinou o pai dela. Nas mãos de Joel e Ethan Coen, notórios por apresentarem uma visão sempre complexa e pessimista do ser humano – como exemplificam dois dos seus melhores filmes, Gosto de sangue, a estreia deles, e Onde os fracos não têm vez –, Mattie Johnson (a novata Haille Steinfeld, candidata ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) é um anjo da morte, não importa sua carinha angelical. Com muita clareza, o espectador é confrontado aqui com duas forças autóctones da formação dos Estados Unidos: a questão da individualidade e o acerto de contas, transmutado aqui como vingança, que geralmente deixam a justiça de lado.

Na história, a pequena Mattie sai do seu pequeno rancho para buscar o corpo do pai e, no meio do caminho, decide honrar a morte dele. Para isso, vai contratar um agente do governo federal, Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um bêbado fanfarrão que usa de todos os meios possíveis para eliminar os fora da leis do velho Oeste. A primeira vez que Mattie o vê, ele está sendo interrogado por ter cometido uma matança. Naquele momento, Cogburn já mandara 23 homens para a cova. São essas credenciais que fazem com que a garota o contrate e vá com ele, mesmo a contragosto, atrás de Tom Chaney (Josh Brolin), o assassino do seu pai. Outro homem, o xerife Laboeuf (Matt Damon), também está a caça do bandido, acusado de assassinar um senado no
Texas.

Apesar do tom soturno do filme, os irmãos Coen não deixam de lado o humor presente na novela de Charles Portis, talvez mais explorado no filme com John Wayne. Bravura indômita, claro, é um filme mais avançado que o western de Hathaway, e traz elementos formais e estéticos que lhe dão esta grandiosidade.

A princípio, nota-se mais a qualidade dos diálogos e dos atores, que estão em excelente forma, com Jeff Bridges deitando e rolando na pele do agente beberrão. O trabalho para mostrar como eles começam a conquistar um ao outro é muito sutil, o que mostra como a dupla Hailee Steinfeld e Jeffe Bridges teve cumplicidade. Além disso, Bravura indômita encontrou pela mãos dos Coen
uma visão muito digna, ou seja, colocou a história de Portis em seu devido lugar, como um western crepuscular que mostra os últimos estertores de uma visão de mundo de toda uma civilização.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Tudo pronto para a 61ª Berlinale

Festival de Berlim começa quinta-feira com estreia internacional do filme
Bravura indômita, de Joel e Ethan Coen

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br


Desde as 10h da manhã de ontem que os alemães fazem fila no Palácio do Festival para comprar ingressos e garantir as melhores sessões nas diversasmostras da 61ª Berlinale – nome oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que começa nesta quinta-feira. Durante 10 dias, os filmes mais transgressores e experimentais da temporada vão estar disputando a atenção de cerca de 300 mil espectadores, entre eles quatro mil jornalistas, de 80 países espalhados por todos os continentes do globo. A cerimônia de abertura caberá ao western Bravura indômita, de Joel e Ethan Coen, que tem estreia marcada para esta sexta-feira em todo o País. Pela quinta vez, a reportagem do Jornal do Commercio irá acompanhar as principais sessões do Festival, novamente em parceria com o Centro Cultural Brasil-Alemanha.

A Mostra Competitiva vem com 22 longas-metragens, dos quais 16 disputam os famosos Ursos de Ouro e de Prata, que serão entregues na cerimônia de encerramento, na noite do dia 19. Entre os cineastas que estão concorrendo, um dos destaques é a volta do alemão Wim Wenders com o documentário Pina, sobre a coreógrafa Pina Bausch, que terá exibição em 3D. Werner Herzog, seu companheiro de geração e que presidiu a edição do ano passado, também vai mostrar um documentário em 3D, o badalado Cave of the forgotten dreams, que será exibido fora da competição. O terceiro filme em 3D é a animação francesa Les contes de la nuit, de Michel Ocelot.

A competição ainda trará The Turin house, do húngaro Béla Tarr, The forgiveness of blood, do americano Jonathan Marston, The future, da americana Miranda July, e Coriolanus, que marca a estreia do ator inglês Ralph Fiennes com diretor. Para marcar o posicionamento político do festival, o diretor Dieter Kosslick convidou o cineasta iraniano Jafar Panahi para participar do júri da Mostra Competitiva. Ele será o tema da mostra Cineasta do Mundo, com vários filmes seus apresentados na programação oficial, como as sessões especiais de Offside, no Palácio do Festival, uma delas no próximo dia 11, quando se comemora o aniversário da revolução iraniana.

Panahi foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar pelos próximos 20 anos sob a acusação de atentar com o estado iraniano. A atriz ítalo-americana Isabella Rossellini será a presidente do júri internacional, que além de Jafar Panahi contará com a produtora australiana Jan Chapman, a atriz alemã Nina Hoss, a super-estrela de Bollywood Aamir Khan, o cineasta canadense Guy Maddin e a figurinista Sandy Powell.

Pelo terceiro ano consecutivo, o cinema brasileiro não terá representante na Mostra Competitiva. No entanto, a continuação de Tropa de elite, que ganhou o Urso de Ouro em 2008, é um dos filmes principais da Mostra Panorama. Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro vai estar entre os filmes que vão balançar as estruturas da Berlinale. Para o diretor da mostra, Wieland Speck, “José Padilha seleciona o que ele quer do repertório do gênero, mas ao mesmo tempo conta uma história que é muito mais crítica e visionária que os filmes feitos industrialmente jamais poderiam ser”.

Como já virou praxe na Panorama, o cinema gay vai ganhar destaque, com os franceses Romeos, de Sabine Bernardi, e Tomboy, de Céline Sciamma. O Brasil ainda vai estar presente com Os residentes, do mineiro Tiago da Mata Machado, que concorre na mostra Forum. Por enquanto, os outros filmes brasileiros ainda estão em fase de gestação. No Mercado de Coprodução 2011, o curitibano Marcos Jorge aparece com 2 Kidnappings, já no Mercado Projeto de Talento, surgem Rafael Lessa, com Greicekelly, e Aleteia Selonk, com Woman of the father.

Como um festival desse porte não se faz apenas com novos filmes, as sessões de homenagens e retrospectivas da Berlinale estão entre os melhores programas desta edição. Só a retrospectiva em homenagem ao cineasta sueco Ingmar Bergman já seria o bastante para o cinéfilo mais exigente. Serão exibidos mais de 20 filmes dirigidos por Bergman, além de documentários onde
ele e sua obra são os temas.

Entre os longa-metragens que serão mostrados em Berlim – em cópias estalando de nova –, encontram-se clássicos como Morangos silvestres, O sétimo selo, Mônika e o desejo, Persona – Quando as mulheres pecam, A hora do lobo, Da vida das marionetes e Fanny e Alexander.

Entre as homenagens, uma das sessões mais disputadas será a exibição em digital de Motorista de táxi, de Martin Scorsese, que vai contar com a presença do cineasta Paul Schrader, roteirista do filme.

Outros homenageados são os alemães Armin Mueller-Stahl (ator), e Bernd Eichinger (produtor e realizador), recentemente falecido. Uma mostra sobre culinária e cinema é outro chamariz da 61ª Berlinale.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O tempo dirige a Berlinale.


KLEBER MENDONÇA FILHO
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A Berlinale completou este ano seu 60º aniversário exibindo interessantíssimo material de arquivo, deixando claro que o festival foi instrumento importante nas décadas da Guerra Fria. Talvez seja esse histórico que ainda dê ao Festival Internacional de Cinema de Berlim um certo sabor de democracia e uma tentativa de programar filmes de teor social e político, com a habitual demonstração de respeito por autores do mundo.
Essas quase duas semanas de cinema, espalhadas em dezenas de salas grandes de Berlim, de certa forma refletem a sensação geral que esta cidade inspira. Se o mundo é repleto de cidades ricas em cultura e arte, poucas têm a capacidade de inspirar o pensamento livre para as artes como Berlim, que durante tanto tempo viu-se dividida, e que agora parece agregar tudo.
É um festival de cinema encravado no meio de sítios históricos que nos lembram não apenas o que aconteceu aqui, mas que parece ainda guiar, através do passado, os caminhos para o futuro.
Com as principais salas localizadas entre o monumento em memória ao Holocausto e a antiga sede da Gestapo, a área é ainda cortada pelo fantasma desenhado no chão (em singelos paralelepípedos) do que uma vez foi o Muro, a Berlinale oferece certamente um grande diálogo entre as imagens do cinema e as imagens deixadas pelo passado.
Uma das imagens mais fortes da Berlinale este ano foi a do clássico Metropolis, de Fritz Lang, sendo projetado numa tela montada no Portão de Brandemburgo, outro marco da cidade. O filme foi restaurado a partir de uma cópia que se acreditava perdida e foi achada na Cinemateca de Buenos Aires em 2008.
Nas suas sete mostras distintas, críticos, gente de mercado e público tentam dar algum sentido ao excesso de filmes de todos os lugares e estilos. Curiosamente, vale observar que a produção alemã continua tímida como resultados na tela, embora a participação da Alemanha como espaço para produção esteja aumentando. O maior sucesso desse estímulo recente foi a fatia alemã em Bastardos inglórios, de Quentin Tarantino, indicado a oito Oscars.
Cofinanciado pelo fundo de incentivo ao cinema da cidade de Berlim (Berlin-Brandenburg GmbH), e filmado nos estúdios Babelsberg, nos arredores de Berlim, o sucesso mundial do filme foi transformado em marketing para Berlim, com camisas, suéteres, bonés e cartazes do filme vendidos no comércio da cidade.
Na quarta-feira passada, foi anunciado um acordo entre os estúdios Pinewood, em Londres, e os estúdios Hamburg e Adlershof numa joint-venture chamada Pinewood Studios Berlin Film Services. A revista Variety de quinta-feira descreveu os fundos alemães para coproduções estrangeiras como “generosos”, nas esferas regional e federal, resultando “na mais dinâmica região da Europa para a produção de cinema”.
E os filmes alemães? Embora a questão dos fundos de incentivo e coproduções garanta nacionalidade alemã a pelo menos três outros filmes em competição, são três os filmes que puderam ser considerados alemães na competição esse ano. E foi uma mostra bem fraca de uma filmografia que já nos deu Fassbinder, Wenders e Herzog.
Não deixa de ser curioso ver que a única vaia ouvida nas sessões da Berlinale foram para um drama histórico sobre o nazismo. Jud Suss – Film ohne gewissen (Judeu Suss – Ascensão e queda), de Oskar Roehler, narra, como num assistível especial para a TV, a história real e terrível de Ferdinand Marian, ator ariano que foi obrigado por Joseph Goebbels, à frente do cinema no 3º Reich, a aceitar o papel do mais abominável estereótipo do judeu, numa superprodução de propaganda nazista. Fica a dúvida: o público vaiou o filme ou o tema?
Se um segundo filme, Der rauber (O ladrão), de Benjamin Heisenberg, conquistou o respeito do público e da crítica, um terceiro foi um dos poucos vexames da seleção esse ano. Shahada, de Burhan Qurbani, crônica étnica sobre muçulmanos na Berlim contemporânea, lidando com um manual de problemas modernos, como aborto, homossexualismo e adultério. Esse subCrash berlinense é um projeto de jovem realizador, e ninguém sabe ao certo o que estava fazendo em espaço tão importante.
Vale dizer que, nas mostras paralelas, o cinema alemão pareceu relacionar-se bem com o seu passado. Além do evento que foi a apresentação de Metropolis, Berlim apresentou a cópia restaurada de um documento essencial para entender não apenas o elemento humano, mas a história dolorida da Alemanha: Nuremberg: its lesson for today, o documentário oficial do julgamento de 23 oficiais nazistas, exibido na Alemanha como parte do processo de desnazificação da Alemanha no pós-Guerra.
Por último, um relançamento pertinente, e não menos fascinante: a Fundação Fassbinder, dedicada a divulgar a obra de Rainer Werner Fassbinder, apresentou em duas sessões especiais a cópia nova de um dos seus filmes menos conhecidos, Welt am draht (1973), surpreendente por ser um filme de ficção científica sobre mundos virtuais criados por computador. É o presente.

O Assassino Dentro de Mim.


KLEBER MENDONÇA FILHO
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O realizador inglês Michael Winterbottom, cujas habilidades como cineasta espalham-se por todas as gamas, formatos e gêneros apresentou seu exercício em mitologia americana aplicada, The Killer Inside Me (O Assassino Dentro de Mim). Foi exibido hoje, no Festival de Berlim, o último filme apresentado em competição. A violência do filme gerou o tipo de reação comum em festivais de cinema, e que irá repetir-se nas salas, quando do seu lançamento. Espectadores levantando-se apressados em direção à saída de emergência.

Ambientado nos anos 50, no interior do Texas, é a história de um jovem xerife adjunto (Casey Affleck) que começa a despertar suspeitas sobre suas condutas depois que uma série de assassinatos passam a ocorrer na sua jurisdição, normalmente com pessoas com as quais ele esteve.

É uma história clássica de assassino por natureza na paisagem americana, e já há acusações de que The Killer Inside Me seja mais do mesmo. Talvez seja, considerando a freqüência desse sub-gênero nas imagens americanas.

De qualquer forma, essa história foi filmada por esse realizador inglês com certo fascínio, em em 35mm CinemaScope. Estão lá os enquadramentos clássicos da mitologia americana, o sotaque forte do Texas, a música, a violência.

O filme foi, em grande parte, mal recebido, talvez refletindo a natureza barata da literatura do autor Jim Thompson, cujo livro homônimo foi publicado em 1952. É um autor, e um livro da chamada ‘pulp fiction’, e o tratamento de Winterbottom nos pareceu totalmente adequado.

A carga mais pesada das imagens agressivas de The Killer Inside Me (com distribuição já garantida no Brasil) existe na violência contra mulheres, resultado de um personagem que, em parte, as adora, e, de outra maneira, quer destruí-las em arroubos assustadores de agressão e extermínio. E o faz com as mãos e os pés, para máximo contato físico. Curiosamente, com os homens, os atos de brutalidade são bem mais rápidos e certeiros, o que não deixa de ser um aspecto curioso da construção desse personagem.

Na coletiva de imprensa, uma jornalista levantou a questão sempre presente da sexualização do crime e da brutalidade, uma vez que as duas personagens femininas são interpretadas por estrelas sensuais como Jéssica Alba e Kate Hudson. Winterbottom também enfrentou a fúria básica dos mais sensíveis, e sua resposta foi a resposta padrão.

“A violência no cinema deve ser chocante. Acho questionável quando filmes mostram a violência como algo divertido, engraçado. Sobre misoginismo, é uma questão sempre complicada, já que a violência contra as mulheres é algo que faz parte da sociedade, e certamente faz parte da história desse personagem. Alem disso, meu filme deixa claro que este é um homem com sérios problemas, ele não é um modelo a seguir”.

Winterbottom, que já fez filmes tão díspares como A Festa Nunca Termina (2000), sobre a cena musical de Manchester, Nesse Mundo (2002, Urso de Ouro em Berlim) e Caminho Para Guantanamo, lembrou que seu primeiro longa metragem, O Beijo da Borboleta (1995) já marcava território temático semelhante, mas ambientado no norte da Inglaterra.

Em Berlim, ele quis deixar clara sua intenção de fazer um filme que fosse totalmente fiel ao livro, algo que beirasse o exercício de linguagem. “Isso não significa que tenha partido para procurar a imagem do cinema noir, mesmo que o livro tenha essa carga noir.

Um aspecto também levantado na coletiva foi a ausência de todo o elenco, em Berlim. Isso foi somado aos boatos, divulgados na première mundial do filme no Festival de Sundance de que Jéssica Alba teria abandonado a sessão na cena em que é vitimada.

“Isso não é verdade, Jessica havia visto o filme antes, foi a Sundance para apresenta-lo e não ficou para ver a sessão. Sobre a ausência dos outros, é uma pena, quando aceitamos o convite para vir a Berlim, prometemos que todos estariam aqui, portanto, podem imaginar como estamos chateados. De qualquer forma, Casey tem preferido não trabalhar em filmes, e já me considero sortudo de tê-lo tido no filme”.

Um melodrama totalmente do bem.


KLEBER MENDONÇA FILHO
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Berlim foi feliz até para fechar, pois o ano dificilmente encontrará filme tão doce como o último trabalho do japonês Yoji Yamada, Otôto, título internacional About Her Brother (Sobre o Irmão Dela), escolhido como filme de encerramento. Fez dobradinha perfeita com o outro asiático que abriu o festival, o chinês premiado Tuan Yuan (Separados Juntos).

Exibido fora de competição, Otôto é um melodrama totalmente do bem sobre laços familiares testados pelo tempo e convenções sociais. Como pano de fundo, a forma muito particular (para nós estrangeiros) de como a vida na sociedade japonesa se desenrola.

O filme conta a história de mãe e filha, marido/pai já falecido, que convidam para o casamento da garota um tio que normalmente causa constrangimento pelo seu comportamento estridente. É um homem solitário e bom, que nunca teve muita sorte na vida.

Sua presença no casamento irá gerar tensão, mas são as descobertas posteriores desse tio/irmão que dão ao filme toda a sua beleza. Yamada saiu da cerimônia de encerramento com um troféu especial, a Berlinale Kamera. Um dos últimos planos do filme é um brinde proposto com vinho. Perfeito encerramento.

O cinema tratado como vinho.



KLEBER MENDONÇA FILHO
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No início do festival, Werner Herzog mostrou-se curioso para descobrir se “esta seria uma safra vintage”, o cinema tratado como vinho. Não há exatamente uma resposta para isso, apenas os resultados do júri comandado por um dos grandes realizadores do cinema, cujos filmes, ao longo dos últimos 40 anos, têm provocado e estimulado a maneira como as imagens registram o elemento humano e o próprio mundo.

Ao final do festival, Herzog disse, “nenhum momento de amargura durante os trabalhos do júri”. Não era difícil suspeitar que ele talvez pudesse admirar o radicalismo de Caterpillar, de Koji Wakamatsu, vencedor do prêmio de Melhor Atriz (Shinobu Terajima). Ou enxergar algo do seu próprio cinema no filme russo Kak Ya Provel Etim Letom (Como Terminei o Verão), de Alexei Popogrebsky, sobre o isolamento radical de dois homens no círculo polar ártico.

No palco, o diretor Popogrebsky disse ter dado de presente para seu fotografo, Pavel Kostomarov, uma copia de O Homem Urso, do próprio Herzog, para que ele abrisse os olhos para a sua paixão (adquirida na filmagem) por ursos populares. Kostomarov ganhou prêmio técnico especial em reconhecimento ao extraordinário trabalho de câmera no filme, assim como os atores Gregory Dobrygin e Sergei Puskepalis dividiram o Urso de Prata na atuação masculina.

O mesmo tratamento de prêmio duplo foi dado ao romeno Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier (Se Eu Quiser Assoviar, Eu Assovio), de Florian Serban, que ficou com o prêmio Alfred Bauer, que estimula novas perspectivas para o cinema, e o Grande Prêmio do Júri, na prática o segundo lugar.

É o primeiro filme de Serban e conta a história de um delinqüente que tenta lidar com o reformatório, dias antes de ser solto. Não tem o brilho de outros romenos recentes, mas tem precisão e a qualidade está lá.

Os dois ursos de prata continuam confirmando a máquina de ganhar prêmios dessa produção romena muito apreciada, onde a escrita é cheia de personalidade. Na competição de curtas metragens, a Romênia ainda ganhou Melhor Filme com Colivia (Gaiola), de Adrian Sitaru, outra observação afiada da vida.

O bom drama chinês Tuan Yuan (Separados Juntos), de Wang Quan’an, filme de abertura da Berlinale esse ano, ficou com melhor roteiro, escrito por Na Jim e Quan’an. O filme utiliza o passado recente da China para reiniciar uma antiga história de amor.

Os produtores de Polanski foram receber o troféu, um deles relatando que o cineasta teria dito que, mesmo se estivesse já livre, não teria ido à Berlinale. “Da última vez que fui receber um prêmio num festival de cinema, fui preso”, referência à sua captura na Suíça, em setembro, onde seria homenageado.

Polanski aguarda a solução de um processo iniciado nos EUA em 1977, de onde fugiu na época, que o acusa de manter relações sexuais com menor de idade. Nos perguntamos como será recebido pelo grande público The Ghost Writer, um empolgante thriller sem cenas de ação ou explosões... A vitória do filme de Polanski também foi lembrada como resultado dos investimentos na produção de cinema na própria Berlim, onde Polanski rodou seu filme.

No final das contas, Berlim 2010 deu uma levantada no nível. Nada de valorizar a tortura pré-desenhada de personagens, como no dinamarquês Submarino, de Thomas Vinterberg, um favorito dos colegas da critica. Nada de simpáticas dramédias de cara dura da Noruega (A Somewhat Gentle Man, de Hans Peter Moland), ou o cinema feminino que usa o bottom vistoso na lapela de “eu sou mulher” (o argentino Quebra Cabeças, de Natalia Smirnoffo bósnio Na Putu, de Jasmila Zbanic).

A melhor seleção de filmes na competição.


KLEBER MENDONÇA FILHO
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Das quatro edições do Festival de Berlim que a reportagem do JC acompanhou, esta teve a melhor seleção de filmes na competição. Para combinar, uma premiação lúcida que, para conhecedores do universo do autor alemão Werner Herzog, é coerente. Escolheram a delicadeza do filme turco Bal (Mel), de Semih Kaplanoglu, e valorizaram novos talentos. Herzog e seus jurados ainda apoiaram Roman Polanski com Melhor Diretor não só por um bom novo filme, The Ghost Writer, mas, entende-se, pelo drama pessoal e controvertido pelo qual o mestre franco-polonês passa atualmente.

Na cerimônia de encerramento, sábado à noite, o diretor artístico da Berlinale, Dieter Koslick, anunciou feliz que, no ano em que comemorou seu aniversário de 60 anos, o Festival Internacional de Berlim superou-se em público.

Mais de 300 mil espectadores confirmam um festival que atende ao mercado, a mídia e, principalmente, o público, que lota dezenas de salas de grande porte, ao redor de Berlim, durante 12 dias. Aqui, brinca-se que as proporções gigantes da bilheteria na Berlinale são sempre estimuladas pelo inverno, o desse ano um dos mais fortes dos últimos anos. Com oito graus negativos na rua, a melhor coisa é ir ao cinema.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

No mercado de Berlim.

KLEBER MENDONÇA FILHO
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O bom título internacional de É Proibido Fumar, filme de Anna Muylaert, é Smoke Gets in Your Eyes, nome do clássico pop do The Platters, nos anos 60. Foi anunciado em Berlim que o filme terá comercialização administrada para o mercado estrangeiro pela Figa Films, de Los Angeles. O filme foi lançado no Brasil em dezembro último, e agora está no mercado de Berlim.

Libertação por parte de uma mulher.


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O outro filme dirigido por cineasta mulher é da Bósnia e Herzegovina. Na Putu (No Caminho), de Jasmila Zbanic (ganhadora do Urso de Ouro 2006 por Em Segredo). Como no argentino, há uma libertação por parte de uma mulher, mas aqui de fantasmas da história recente e sangrenta do país, tema também visitado no filme anterior.

A aeromoça Luna (Zrinka Cvitesic) vê seu companheiro desempregado se converter a uma forma radical de islamismo, levando-o a mudar completamente como pessoa. É o choque entre a Bósnia européia globalizada pós-conflitos dos anos 90 e as raízes dessa mesma cultura, que não parece ir embora. Nos dois filmes, ações afirmativas políticas de mulheres que decidem seus próprios caminhos. Que bom.

Dois filmes com ponto de vista feminino.


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Dois filmes com ponto de vista feminino passaram na competição, o melhor deles o argentino Rompecabezas (Quebra-cabeças), de Natalia Smirnoff. Muito envolvente, utiliza estrutura minimalista com resultados consideráveis. Maria Onetto, a mesma atriz tão bem utilizada por Lucrecia Martel em A Mulher Sem Cabeça, volta com um ar e uma postura não tão diferente. Interpreta uma dona de casa de Buenos Aires que descobre-se exímia montadora de quebra-cabeças.

Mãe de filhos homem crescidos, marido delicadamente machista, ela descobre na resolução peça a peça de imagens da cultura universal (Egito antigo e clássicos da pintura) uma energia que talvez estivesse faltando na sua vida. Isso aumenta depois que responde a um anúncio para que treine suas habilidades com um homem de meia idade rumo a um campeonato internacional. Uma das imagens do festival: ver essa mulher, sempre serena, não necessariamente infeliz, abrir um verdadeiro sorriso pelo simples fato de sentir-se bem consigo mesma.

É um filme de mulher sobre as conquistas necessárias de pequenas liberdades, cuidadosamente modulado pelas atuações super naturais e por um roteiro bem escrito. Salta aos olhos a capacidade que os argentinos têm de gerar filmes a partir do que parece ser pouca coisa, com grande confiança nos dramas humanos de boa qualidade e tom obviamente pessoal. Salta também aos olhos a influência de Martel não só em tentativas recentes do cinema brasileiro de curta e longa metragem, mas também nesse produto da própria Argentina.

Um destaque claro e evidente na competição.


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Depois de uma semana inteira com máximas de dois graus negativos, o termômetro passou hoje dos três positivos, começando a derreter o verdadeiro rinque de patinação no gelo no qual Berlim se transformou. Este é ido como um dos invernos mais fortes dos últimos 10 anos. E já chegando ao fim, persiste a sensação de que esta 60a edição da Berlinale tem qualidade geral respeitável, mas num todo sem filmes que desencadeiem reações de grande alegria.

Combinando o desconforto físico trazido pelo frio do lado de fora dos cinemas com o frio sentido na tela, há um destaque claro e evidente na competição que é o filme russo Kak Ya Provel Etim Letom (Como Terminei Meu Verão), do diretor Alexei Popogrebsky. Todo filmado no círculo polar ártico, na ponta extremo-leste do território russo, é a história de dois homens numa base de monitoração meteorológica isolada.

O mais velho (Grigory Dobrygin) é pai de família, e comunica-se com esposa e filho através de mensagens de celular enviadas por terceiros, na base de rádio, a centenas de quilômetros de distancia. O mais jovem é um estagiário (Sergei Puskepalis) que pegou o serviço para escrever uma monografia nesse exílio exótico. O filme se passa no verão do Círculo Polar Ártico, mas as temperaturas não parecem passar de zero grau.

A sensação de isolamento é espetacular, deixando o filme a alguns metros do cinema fantástico, onde lembranças de O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982), de John Carpenter, são constantes. Trabalhos de fotografia (com a câmera digital Red) e som incríveis, provam que Popogrebsky é um nome a se observar.

O filme transforma-se em drama enervante num momento de ausência do homem mais velho. O estagiário recebe uma mensagem importante via rádio que, de forma não explicada via formas convencionais, ele não quer, ou não consegue passar para seu chefe, assumindo comportamento cada vez mais inusitado, como uma criança assustada. Seria a loucura do isolamento? Ou o peso da natureza sobre o homem, aspecto tão visto nas imagens russas de cinema?

Como Terminei Meu Verão tem a cotação mais alta no quadro da crítica, atualizado diariamente na revista inglesa Screen International, distribuída no festival. Uma leitura possível colocaria o filme bem próximo dos territórios distantes filmados no cinema de Werner Herzog, presidente do júri em Berlim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O divertido Besouro.


KLEBER MENDONÇA FILHO
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Além do documentário anglo-americano Lixo Extraordinário, a outra participação brasileira na Panorama foi Besouro, exibido terça-feira, filme de artes marciais já lançado nos cinemas do Brasil. A revista Hollywood Repórter publicou critica muito positiva do filme de Daniel Tikhomiroff assinada por Deborah Young. “O divertido Besouro é um tipo raro de filme de artes marciais com história envolvente e idéias sociais sendo expressas”.

Uma crônica muito bem observada.


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Surpresa boa na participação brasileira Bróder, de Jefferson D, exibido ontem na seleção Panorama, em estréia mundial no Festival de Berlim. Trata-se de uma crônica muito bem observada sobre três amigos da periferia de São Paulo, faixa etária 23 anos, numa breve reunião para comemorar o aniversário de um deles. Possibilidades de o filme cair em clichês são anuladas por uma honestidade notável do filme, claramente fruto de um universo social bem observado.

O perigo do clichê está bem mais presente na sinopse do que no que vemos projetado. A ambientação é a classe média baixa de São Paulo na já muito filmada topografia urbana das periferias brasileiras desenhadas por becos e vielas. É um ambiente repleto de possibilidades, uma delas o crime. Aqui, é também um espaço essencialmente familiar, algo muito bem estabelecido na primeira meia hora, onde uma feijoada de aniversário junta os amigos Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane).

Pibe saiu do bairro para criar filho com a esposa, Jaiminho joga futebol na Espanha, é milionário, e Macu, ainda na comunidade, lida com gente que pertence claramente ao lado sombrio da força. É claro que a matriz para esse tipo de narrativa é o Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973), de Martin Scorsese, e o Os Donos da Rua (Boyz’n’D’Hood, 1991), do John Singleton, mas Jefferson D dá ao cinema brasileiro um ponto de vista importante para esse tipo de material.

O trio de amigos divide não apenas a amizade, mas também (ex)namoradas, irmãs, primas, madrinhas e padrinhos. O catolicismo é abandonado para o protestantismo (numa cena muito bem ilustrada) e é quase possível sentir o cheiro do feijão no fogo. Aos poucos, os personagens são desenvolvidos de forma muito acima da media, com perfeita integração de Blat, Haagensen e Guindane), alem de uma participação muito boa de Cássia Kiss.

Curiosamente, a única nota falsa de Bróder é exatamente uma cena onde um personagem branco, da classe mais alta, é visto no seu ambiente. Esse empresario bebe champanhe com sua esposa loira de olhos azuis, num verde campo de golfe.

A segunda metade cai em rendimento, uma vez que Jefferson D parece precisar levar adiante a tese de que os caminhos para os jovens da periferia são, de fato, perigosos, algo arrematado num letreiro final que deveria ter sido arquivado como idéia. De qualquer forma, os desdobramentos são bem articulados, com os dois pés no chão de São Paulo, muito antes de Bróder revelar-se “um filme com uma mensagem”. Bem filmado e atuado, o que mais destaca-se no filme é o simples fato de ele ter coração.

Sair de um filme coçando a cabeça


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É sempre muito bom sair de um filme coçando a cabeça, acompanhado escada abaixo por um ponto de interrogação. Havia ocorrido um dia antes com o japonês Caterpillar, ontem foi a vez de Shekarchi (Caçador), filme iraniano (feito com dinheiro alemão) diferente de qualquer coisa já vista na filmografia do país. Também fica a pergunta do como um filme desse foi feito no país de Mahmoud Ahmadinejad.

Pois bem, temos um segurança, homem de família. Uma tragédia, resultado dos protestos de rua de um ano atrás, o deixa só. Ele pega um rifle e, como um caçador na natureza selvagem, mata, à distancia, dois policiais. É um filme cheio de raiva e desobediência civil, com uma visão humana e pessimista das instituições iranianas. A violência e mais próxima de um filme ocidental, mas ainda há uma economia à vista que esperamos sempre dos iranianos. Bom.

Uma janela para entendermos de perto conflitos ancestrais.

KLEBER MENDONÇA FILHO
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Em Budrus, Julia Bacha filma em Mini-DV e com a câmera trêmula na mão uma rara instância onde um enfrentamento entre judeus e palestinos é guiado por uma idéia inicial de paz. O conflito surge do muro erguido por Israel para garantir mais segurança para o país, isolando-o dos territórios palestinos. O problema é que o muro não começa na linha fronteiriça de Israel, mas quilômetros dentro das terras palestinas, desenhado com aparente arrogancia.

Uma das localidades afetadas é a vila de Budrus, onde surge uma resistência pacífica, que usa a energia das mulheres e crianças para enfrentar a chegada de tratores que irão por abaixo oliveiras importantes culturalmente para a comunidade. Numa passagem extremamente significativa, a comunidade também mostra preocupação de que as crianças não enxerguem o muro da escola que os ensina noções de cidadania.

Não há qualquer dúvida sobre onde está o ponto de vista de Bacha. Ela consegue duas entrevistas importantes com membros do exército de Israel, que acreditam num tom sempre polido na força e na necessidade de limpar a área. Há uma escalada de tensões e, depois de ações prolongadas de mulheres e crianças, rapazes começam a jogar pedras. O filme cria uma situação tensa e não é difícil lembrar de Avatar, de James Cameron, onde o lado fraco enfrenta a estupidez bem equipada dos menos justos...

Informações indicam que as batalhas (com feridos, mas sem mortos) levaram Israel a redesenhar o mapa dos seus muros e cercas, uma vitória para os moradores, reinterpretada pelo comandante israelense como uma vitória de Israel, que assim quis que as coisas fossem. Budrus é mais uma janela para entendermos de perto conflitos ancestrais normalmente descritos de longe pela mídia, com o tipo de “imparcialidade” que gera ainda mais confusão.

Dois documentários poderosos


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Abandonando um pouco a seleção oficial, dois documentários poderosos, de realizadoras independentes, foram apresentados na seção Panorama. Ilustram linhas de tempo totalmente distintas para a história do povo de Israel, agregando novos valores aos arquivos de imagem dessa história, e também reprocessando-os.

Em A Film Unfinished (Um Filme Inacabado), de Yael Hersonski, a copia de trabalho de um filme nazista de propaganda rodado no Gueto de Varsóvia é revista, depois de décadas perdida nos arquivos. Em Budrus, a brasileira Julia Bacha (radicada nos EUA) registra o conflito entre moradores de uma vila nos territórios ocupados por Israel, que reagem pacificamente à construção injusta de um muro de segurança nas suas terras.

A peculiaridade dessa descoberta é investigar a natureza do cinema de registro como uma farsa, uma vez que as equipes de reportagem do 3o Reich foram enviadas para armar um relato parcialmente ficcional sobre a propagada natureza avarenta dos judeus.

Cerca de 500 mil judeus foram segregados no gueto, que a história revelou ter sido a última parada da grande maioria antes das deportações para campos de extermínio como Treblinka e Auschwitz.

Com farto material de takes “1”, “2” e “3”, cenas eram ensaiadas e repetidas para ilustrar o contraste entre os ricos e os pobres, a equipe trazia carne para frigoríficos vazios e dramatizava uma vida burguesa onde muitos morriam de fome.

A idéia de propaganda filmada é uma constante na produção de imagens desde o início do cinema, há mais de 100 anos, com destaque para o acervo de imagens da 2a. Guerra Mundial via americanos, soviéticos, ingleses e alemães.

O filme é inferior a um relato russo chamado Blockade (2005), de Sergei Loznitsa, montado com imagens recusadas na época pela máquina de propaganda da URSS, sobre a vida em São Petersburgo durante o cerco nazista. A jovem Hersonski, por exemplo, usa música dramática e reconstitui uma entrevista importante em cristalino formato de alta definição, criando choque indesejável com o material em película encontrado.

De qualquer forma, há no seu filme algo de verdadeiro e particularmente grotesco nessa análise de imagens encontradas proposta. Especialmente quando a realidade histórica é quebrada pela repetição imposta por um sentido ainda mais grotesco de ficção, a equipe nazista vista acidentalmente nas cenas que foram cortadas.

Boato tão interessante quanto inusitado.


KLEBER MENDONÇA FILHO
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Há um boato tão interessante quanto inusitado correndo em Berlim sobre uma possível parceria entre Martin Scorsese, na cidade para divulgar A Ilha do Medo, e o dinamarquês Lars Von Trier. Segundo a revista inglesa Screen International, os dois teriam se encontrado na cidade no final de semana para discutir uma refilmagem de Taxi Driver, o clássico de Scorsese. O projeto seria parte de uma série proposta por Von Trier com base nos “filmes que me fizeram querer fazer filmes”. O produtor de Von Trier, Peter Aalbaek, não confirmou nem negou, e disse que um anuncio oficial será feito em breve. Rumores também apontam para a participação de Robert de Niro...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um personagem que descobre-se morto.


KLEBER MENDONÇA FILHO
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Toda vez que Martin Scorsese abre a boca, o assunto é o cinema e a ânsia que ele tem pelos filmes. Em coletivas de imprensa de festivais grandes como Berlim, cineastas geralmente negam referencias óbvias, projetam originalidade e um desligamento calculado do cinema no passado. Hoje em Berlim, para apresentar Shutter Island (fora de competição), Scorsese, mais uma vez, soava como um professor sem academicismos, falando sobre uma obra que tem na loucura suas cores principais.

Shutter Island (que estréia no Brasil 5 de março com o título A Ilha do Medo) é a história de um agente do FBI (Leonardo Di Caprio, na sua quarta colaboração com Scorsese) que investiga o desaparecimento de uma paciente num manicômio isolado numa ilha, na Baía de Boston, nos anos 50.

Esse personagem agressivo vai se perdendo cada vez mais dentro da ilha, e é acompanhado por um colega do FBI (Mark Ruffalo) e pela fotografia ostensiva do colaborador de longas datas de Scorsese (e recentemente Quentin Tarantino), Robert Richardson. Vale registrar que Richardson parece sempre tentar seqüestrar os filmes que ilumina com seus focos de luz branca e dura, o que está me causando um cansaço.

Mais do que uma marca, passa quase como uma mania não muito positiva, e isso tem marcado os filmes de Scorsese de uma forma que talvez não seja boa. É tão lugar comum quanto o uso de tracks dos Rolling Stones nas suas mixagens, ausentes aqui, imagino que por questões de anacronismo.

De qualquer forma, aos poucos, A Ilha do Medo leva o espectador a entrar num redemoinho de mistério onde passado e presente, sob clima ostensivo de um cinema clássico de gênero, são embaralhados. É nesse clima chuvoso, sob música do cinema noir de mistério, que Martin Scorsese nos dá uma jornada delirante pela psicologia dos traumas humanos.

Nem sempre o filme parece segurar a sua própria onda, uma vez que cenas inteiras arrastam-se imersas na insanidade da trama. No entanto, A Ilha do Medo termina juntando um esforço marcante de estilo por parte de Scorsese, um filme de gênero de um autor apaixonado pelos gêneros. Referencia mais óbvia aqui é Shock Corridor, de Fuller, mas lembranças de À Beira da Loucura (In The Mouth of Madness), de Carpenter, Bug, de Friedkin, ou mesmo Jacob’s Ladder*, de Adrian Lyne, são possíveis.

Como já andei escrevendo recentemente, A Ilha do Medo, assim como no The Ghost Writer de Polanski, ou Invictus de Eastwood (acrescente aí A Troca, Gran Torino, etc), ou As Ervas Daninhas, de Resnais, ou ainda no cinema dos últimos anos de Rohmer, há uma sensação refrescante de anacronismo, como se esses autores maduros estivessem criando bolhas especiais para que seus filmes existam de maneira sempre muito empolgante, e elegante.

Voltando. Uma conexão alemã do personagem de Di Caprio na trama parece ter feito um bom contato com a platéia de Berlim, embora qualquer tentativa de detalhar a história desse investigador nessa ilha possa estragar as descobertas do espectador que ainda verá o filme. À certa altura, vale dizer, é apresentada a informação de que “sonho” em alemão é “draum”, cuja origem é a palavra “trauma”.

“Creio que esse filme traz muito do que eu vivi como criança, crescendo nos EUA da Guerra Fria, nos anos 50, época onde o medo fazia parte de tudo. A aniquilação total podia acontecer a qualquer hora via guerra nuclear. Filmes como Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers), de Don Siegel, refletiam esse estado de coisas”.

Na coletiva de imprensa lotada (sobrei, vi no frio, no telão), estavam Di Caprio, que parece ter se tornado o ator pessoal de Scorsese na sua fase mais recente. Trabalhou em Gangues de Nova York, O Aviador e Os Infiltrados. “Me sinto feliz de poder trabalhar com alguém que me fez crescer através de seus filmes, começando por Táxi Driver”. O ator revelou que seu pai tem a mesma idade de Scorsese, nasceu no mesmo bairro de Nova York e foram à mesma escola. Confirma clima paternal entre ambos.

Estavam também presentes Ruffalo, Ben Kingsley e Michelle Williams. O elenco lembrou que Scorsese projetou filmes como Laura, de Otto Preminger, durante o processo de preparação. Di Caprio também revelou a importância de observar o trabalho de James Stewart em Vertigo – Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, outra referencia clara.

Cobrado por um jornalista se ainda faria filmes de gangster, o maestro do cinema americano disse que “filmes como Os Bons Companheiros e Cassino foram experiências pessoais de narrativa, onde queria trabalhar com narrações em off. Tiveram seu tempo e seu espaço. De qualquer forma, há um projeto que estou discutindo com Robert de Niro, que seria sobre homens já velhos, relembrando o passado no crime”.

*Não é spoiler. A trama desse filme nada tem a ver com um personagem que descobre-se morto.

O cinema está em alta na Alemanha


KLEBER MENDONÇA FILHO
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A Agencia Alemã de Cinema divulgou ontem que o cinema está em alta na Alemanha, com alta de 13.1% na venda de ingressos. 146.3 milhões de alemães foram às salas do país em 2009, entusiasmo que percebemos nas filas gigantescas da Berlinale que enchem as maiores salas de multiplex que eu já vi. Os números do ano passado geraram 976 milhões de euros. O cinema alemão teve ocupação de 27.4% no mercado, numero excelente frente ao poderio hollywoodiano. Para se ter uma idéia, segundo dados do www.filmeb.com.br, o Brasil vendeu, ano passado, 112 milhões de ingressos, com bilheteria de R$ 970 milhões. O cinema brasileiro teve fatia de 14.2% no mercado.

Sensibilidade e a alegria sem cintos de segurança.


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Outro destaque curioso apareceu na competição, a produção indiana My Name is Khan, de Karan Johar. Pode ser rudemente descrito como um Rain Man indiano, filmado nos EUA, com a sensibilidade e a alegria sem cintos de segurança do cinema que entendemos como sendo “bollywood”. Ou seja, é tudo cinco ou seis notas acima da realidade, da câmera excitada à música ansiosa.

Shah Rukh Khan, espécie de Tom Cruise da Índia, grande astro, interpreta um homem muçulmano portador de um tipo de autismo – síndrome de Asperger – e é preso nos EUA por “ter comportamento suspeito”. Isso vem, claro, da paranóia pós-11 de setembro.

Ele apaixona-se por indiana de outra etnia (Kajol Devgan, linda), cabeleireira em São Francisco da Califórnia. O filme vai lhe conquistando ao mesmo tempo em que o espectador ocidental precisa fazer seus ajustes. Tudo passa como uma enlouquecida novela, tecnicamente impecável, e de mensagem política muito capaz de agradar o júri de Werner Herzog.

Uma espécie de versão russa de Priscilla.


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Fomos dar uma olhada em Veselchaki, de Felix Mikhailov, o filme de abertura da paralela Panorama, provavelmente a mostra mais gay de todos os grandes festivais de cinema do mundo. O que impressiona na Panorama é que, oficialmente, não é uma mostra gay, mas os gostos do curador Wieland Speck são amplamente conhecidos. O que seria de Berlim se Speck gostasse de futebol, ou de tratores? A Panorama esse ano ainda anuncia o multi-filme Fucking Different São Paulo, sobre pansexualidade em Sampa. Veremos.

Veselchaki foi apresentado por Speck como “uma espécie de versão russa de Priscilla – a Rainha dos Deserto”. Para além da curiosidade de ver um travesti fazendo Carmen Miranda e Tico-Tico no Fubá em russo, teme-se que o valor do filme seja muito mais regional do que cinematográfico.

Esse filme de gueto é afirmativo e poderá ser um marco na sociedade pós-soviética, onde, sabe-se, o homossexualismo ainda é tratado com um estranhamento espetacular. No mais, são os dramas de um pequeno grupo de amigos, tentando proteger-se atrás de plumas, paetês e Gloria Gaynor (toca I Will Survive) de um mundo frio e hostil.


Liberalzinho, bem intencionado.


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Curiosamente, a palavra escrita é, de certa forma, a estrela de um outro filme exibido hoje em competição, Howl, produção americana de Rob Epstein e Jeffrey Friedman. Eles fizeram The Celluloid Closet, sobre a imagem do homossexualismo no cinema. Howl abriu o Festival de Sundance, há algumas semanas.

Totalmente apaixonado pelo poeta da geração Beat Alen Grinsberg, Howl ilustra a vida de Grinsberg e sua obra máxima, publicado como Howl and Other Poems, a partir de um processo na justiça de 1957. Tentaram banir o poema tendo como base a interpretação de que seria indecente e, mais estranho ainda, "de que não seria literatura".

Documentaristas, Epstein e Friedman adentram a ficção incertos. Usam o ator James Franco (Homem Aranha, Milk) como Grinsberg nas dramatizações, uma vez que imagens de Grinsberg são raras. Tomaram também a decisão questionável de tentar ilustrar Howl, um fluxo de consciência expressivo, lido em voz alta por Franco num longo sarau, com imagens de uma animação não muito inspirada, com jeito de sobras da revista Heavy Metal.

Ironicamente, no tribunal, o promotor público (David Strathairn) pede que um especialista em literatura explique o significado de algumas passagens, para o qual o especialista responde: “não é possível transformar poesia em prosa. É por isso que chama-se poesia”. A afirmação parece entrar em choque com o próprio filme.

No geral, Howl tem o aspecto e o tom dessa praga que convencionou-se a associar com tudo que vem de Sundance dentro de uma idéia de cinema americano independente. Liberalzinho, bem intencionado, mas, finalmente, não muito bom.

Grande ausência em Berlim


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A grande ausência em Berlim esse ano é a de Roman Polanski, 76 anos. Ele perdeu a estréia mundial do seu novo filme, o ótimo Ghost Writer, exibido hoje em competição, com Ewan McGregor e Pierce Brosnan. Polanski está em prisão domiciliar no seu chalé, na Suíça, por questões judiciais pendentes desde 1978, nos EUA, quando foi acusado formalmente de manter relações sexuais com garota de 13 anos de idade. Aguarda decisão da justiça sobre uma possível extradição, numa batalha legal que ainda deverá render muito Os problemas de Polanski foram esmiuçados no documentário inédito no Brasil Roman Polanski: Wanted and Desired (Procurado e Desejado), da realizadora Marina Zenovich, olhar informativo (e generoso) para com o realizador de Repulsa ao Sexo (exibido aqui na retrospectiva especial dos 60 anos da Berlinale, esta semana), O Bebê de Rosemary e O Pianista. Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams e equipe falaram o óbvio sobre a ausência de Polanski, enfim, de que é lamentável. Não é difícil enxergar paralelos entre Polanski e as tensões de um personagem chave de Ghost Writer, um ex-primeiro ministro britânico (Brosnan) exilado numa belíssima casa de praia nos EUA. Enfrenta acusações sobre manobras ilegais que levaram a Inglaterra à guerra no oriente médio. Há aí um segundo e espetacular paralelo real, com o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair. Ele enfrenta atualmente o mesmo tipo de acusação em relação à participação da Inglaterra na Guerra do Iraque, em alianças escusas com os EUA de George W. Bush. Na coletiva de imprensa, o escritor e roteirista Robert Harris explicou que o texto foi escrito em 2007, mas que, ao longo dos últimos três anos, viu os fatos transformarem seu livro (e, agora, o filme) “num quase documentário”. Há pressão cada vez mais forte para que Blair seja levado ao tribunal de Haia, em especial por ter mentido, ao lado de Bush, sobre as armas de destruição em massa inexistentes de Sadam Hussein. No filme, um “escritor fantasma” (McGregor) é contratado para escrever a autobiografia desse ex-primeiro ministro, substituindo um outro escritor que morreu misteriosamente, fato estabelecido numa cena de abertura muito eficaz, a bordo de um ferry. Com estilo clássico cristalino, Polanski faz o espectador assumir o ponto de vista desse jovem escritor, entrando num mundo que ele não conhece. A sua viagem entre Londres e Martha’s Vineyeard (litoral nordeste dos EUA, mas filmado no norte da Alemanha e em estúdio, em Berlim) é detalhada realisticamente, com trocas de avião, carro e ferry boat. É tudo ágil e sempre instigante como entretenimento, facilmente associável ao cinema de Alfred Hitchcock, algo que um outro filme de Polanski, Busca Fernética (1988), já lembrava. Também não é difícil imaginar Cary Grant no papel de McGregor. Ghost Writer é mais um exemplar de um cinema moderno feito por realizador maduro, dotado do tipo de qualidade que não associamos às narrativas da pressa nos filmes de mercado. Tem um outro timbre. Não é difícil lembrar de Clint Eastwood ou Alain Resnais durante esse novo Polanski, autores maduros que, às suas maneiras pessoais, nos dão filmes, e jeitos de filmar, que terminam fazendo a diferença. Talvez isso venha de parecerem ligeiramente deslocados no quadro geral do cinema. Observamos com interesse que em Ghost Writer, lançado em 2010, a peça principal que move a trama (o ‘McGuffin’ hitchcockiano) não é uma imagem, um disco digital ou um arquivo de computador, mas a palavra escrita na forma de um livro. De fato, são palavras impressas em papel que encerram o filme, a palavra como imagem assinatura.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Uma produção chinesa correta


KLEBER MENDONÇA FILHO
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CHINA – Na Berlim gélida desses dias (quatro negativos diurante o dia, mais neve), o filme de abertura hoje foi uma produção chinesa correta chamada Tuan Yuan (Juntos à Parte), do diretor Wang Quan’an, ganhador do Urso de Ouro 2007 em Berlim por O Casamento de Tuya, só exibido no Brasil em festivais. Fala sobre um casal que, depois de 50 anos separados, voltam a estar juntos, a família da mulher, e especialmente seu marido, tentando entender que ela talvez precise retomar a antiga relação depois de décadas num casamento sem paixão.

A história da China e seu conflito histórico com Taiwan é a base da história, uma vez que milhares de famílias foram separadas no final dos anos 40. Quan’an toca nos temas recorrentes do cinema moderno chinês, o crescimento físico do pais, visível nas construções constantes, na destruição da arquitetura (e de um estilo de vida) do passado. De alguma forma, mostra que o mundo novo tem suas próprias formas de continuar separando as pessoas, já que a nova geração continua lidando com os mesmos temas.

Numa cena, o casal que se reúne visita um antigo quarto, num velho hotel, que significa muito para ambos, e o filme sugere uma continuação imaginária de Amor à Flor da Pele (In The Mood For Love, 2000), de Wong Kar Wai. Escolha discreta para abrir os 60 anos de um festival com a importância de Berlim, mas, de qualquer forma, um filme delicadamente caloroso para receber o público em dias tão frios.