Shakespeare e Chernobyl provocam barulho na Berlinale

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial
Berlim – Na mesma proporção que a temperatura baixou ontem pela manhã, os dois filmes exibidos nas sessões para a imprensa também esquentaram a programação da 61ª Berlinale. E isso aconteceu, antes tarde do que nunca, justamente na metade da competição. No quito dia do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a tela do Berlinale Palast tremeu. Para começar, a coprodução russa-ucraniana Um sábado inocente (V Subbotu), de Alexander Mindadze, atacou os ouvidos da plateia com sua história passada durante o sábado em que o reator da usina de Chernobyl entrou em fissão nuclear. Depois, Ralph Fiennes chegou com sua versão atualizada e furiosa de Corialano (Coriolanus), um espetáculo de sons e imagens em que o ator inglês assumiu estar na frente e atrás das câmeras, realizando o seu primeiro filme como diretor.
Durante a entrevista coletiva, onde estava ao lado do roteirista John Logan, e dos atores Gerard Butler, Jessica Chastain e Vanessa Redgrave, Ralph Fiennes confessou que o projeto resultou da obsessão pela peça e pelo personagem. “Desde que participei da montagem em Londres, há exatos 10 anos, que carregava Coriolano na cabeça e no coração”. Mas a grande vontade dele foi mesmo trazer o texto de Shakespeare, escrito em 1608 e baseado em Plutarco, para os dias atuais. E o clima beligerante na Europa dos últimos 20 anos parece ser o que o levou a criar uma Roma atual, com externas filmadas em Belgrado, na Sérvia.
Ralph Fiennes não teve nenhum pudor em fazer de Coriolano um filme espetacular. As palavras de Shakespeare estão todas lá em pé de igualdade com a ação quase ininterrupta de um filme de guerra. Transplantada para a tela grande, a tragédia do general romano Caio Márcio Coriolano (que ganhou o último nome por conquistar a cidade de Corioli, a principal cidade dos Volscios, seus inimigos) foi pensada por Ralph Fiennes como um filme que interessasse a uma plateia mundial. E esta peça de Shakespeare, em particular, não é lá das mais conhecidas pelo espectadores de cinema, acostumados a eternamente assistirem as mesmas versões de Romeu e Julieta e Hamlet.
A riqueza da peça de Shakespeare e seu questionamento político, principalmente sobre o povo e democracia, fazem de Coriolano um personagempossível de existir nos dias hoje. Sua crítica a falta de coragem e firmeza da população, aliada a seu posicionamento heroico, é comovente. Além disso, ele foi levado pelos outros, ou seja, influenciado pela mãe Volumnia (Vanessa Redgrave), cuja sede de poder precipita sua derrocada como cidadão de Roma, o que acaba em seu banimento e desejo de vingança. Fiennes dá todo o sangue para fazer dele a sua melhor performance no cinema. Seu rosto e a cabeça raspada ensaguentada é uma das imagens mais fortes do festival até agora. Um Urso de Prata de melhor ator não lhe seria injusto.
Voltando à coprodução russa-ucriana Um sábado inocente. Ao contrário de ser um filme que busque a unanimidade, o terceiro longa-metragem do russo Alexander Mindadze é uma boa tentativa de se capturar o clima, não necessariamente o que poderia ter acontecido na noite 26 de julho de 1986, quando ocorreu o acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, perto da cidade de Pripyat. Segundo fontes recentes, cerca de quatro mil pessoas morreram vítimas da radiação.
Apesar de ser um cineasta relativamente iniciante, Alexander Mindze já escreveu mais de 30 roteiros. E foi com imaginação que ele resolveu criar esta “metáfora fílmica” a partir da história de Valery (Anton Shagin), um membro do partido que percebe a dimensão da catástrofe que virá. Sem forças para enfrentar o silêncio da direção da empresa, ele resolve fugir. A primeira coisa que faz é correr para encontrar a namorada, Vera (Svetlana Smirnova), e pegar o primeiro trem. Ele tenta a fuga o tempo todo, mas sempre tem algo da namorada atrapalhando, um salto alto que quebra, um passaporte que não é encontrado, até encontrar os amigos que tocam em festas de casamento. A partir tudo fica mais surrealista.
O primeira coisa que chama a atenção em Um sábado inocente é a direção de fotografia do romeno Oleg Mutu, o mesmo de A morte do sr. Lazarescu, um dos clássicos recentes do seu país. Este encontro do cinema russo com o cinema romeno só poderia resultar no que deu: uma ópera selvagem e fugaz, ondes os personagens correm contra o tempo para viver o aqui e agora. Com a câmera sempre na mão, na importa se a cena for parada ou em desabalada carreira, o certo é que estamos diante de um filme dilacerado e avassalador. Numa das cenas mais loucas, Valery toca bateria e Oleg Mutu segue a música num plano-sequência do tamanho da música. Não há dúvida que este foi o filme da mostra competitiva que mais saiu dos trilhos até agora. Resta agora esperar até o sábado e ver o que a presidente do júri, a atriz ítalo-americana Isabella Rossellini terá a dizer ao lados dos seus colegas.

































