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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Shakespeare e Chernobyl provocam barulho na Berlinale


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


Berlim – Na mesma proporção que a temperatura baixou ontem pela manhã, os dois filmes exibidos nas sessões para a imprensa também esquentaram a programação da 61ª Berlinale. E isso aconteceu, antes tarde do que nunca, justamente na metade da competição. No quito dia do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a tela do Berlinale Palast tremeu. Para começar, a coprodução russa-ucraniana Um sábado inocente (V Subbotu), de Alexander Mindadze, atacou os ouvidos da plateia com sua história passada durante o sábado em que o reator da usina de Chernobyl entrou em fissão nuclear. Depois, Ralph Fiennes chegou com sua versão atualizada e furiosa de Corialano (Coriolanus), um espetáculo de sons e imagens em que o ator inglês assumiu estar na frente e atrás das câmeras, realizando o seu primeiro filme como diretor.

Durante a entrevista coletiva, onde estava ao lado do roteirista John Logan, e dos atores Gerard Butler, Jessica Chastain e Vanessa Redgrave, Ralph Fiennes confessou que o projeto resultou da obsessão pela peça e pelo personagem. “Desde que participei da montagem em Londres, há exatos 10 anos, que carregava Coriolano na cabeça e no coração”. Mas a grande vontade dele foi mesmo trazer o texto de Shakespeare, escrito em 1608 e baseado em Plutarco, para os dias atuais. E o clima beligerante na Europa dos últimos 20 anos parece ser o que o levou a criar uma Roma atual, com externas filmadas em Belgrado, na Sérvia.

Ralph Fiennes não teve nenhum pudor em fazer de Coriolano um filme espetacular. As palavras de Shakespeare estão todas lá em pé de igualdade com a ação quase ininterrupta de um filme de guerra. Transplantada para a tela grande, a tragédia do general romano Caio Márcio Coriolano (que ganhou o último nome por conquistar a cidade de Corioli, a principal cidade dos Volscios, seus inimigos) foi pensada por Ralph Fiennes como um filme que interessasse a uma plateia mundial. E esta peça de Shakespeare, em particular, não é lá das mais conhecidas pelo espectadores de cinema, acostumados a eternamente assistirem as mesmas versões de Romeu e Julieta e Hamlet.

A riqueza da peça de Shakespeare e seu questionamento político, principalmente sobre o povo e democracia, fazem de Coriolano um personagempossível de existir nos dias hoje. Sua crítica a falta de coragem e firmeza da população, aliada a seu posicionamento heroico, é comovente. Além disso, ele foi levado pelos outros, ou seja, influenciado pela mãe Volumnia (Vanessa Redgrave), cuja sede de poder precipita sua derrocada como cidadão de Roma, o que acaba em seu banimento e desejo de vingança. Fiennes dá todo o sangue para fazer dele a sua melhor performance no cinema. Seu rosto e a cabeça raspada ensaguentada é uma das imagens mais fortes do festival até agora. Um Urso de Prata de melhor ator não lhe seria injusto.

Voltando à coprodução russa-ucriana Um sábado inocente. Ao contrário de ser um filme que busque a unanimidade, o terceiro longa-metragem do russo Alexander Mindadze é uma boa tentativa de se capturar o clima, não necessariamente o que poderia ter acontecido na noite 26 de julho de 1986, quando ocorreu o acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, perto da cidade de Pripyat. Segundo fontes recentes, cerca de quatro mil pessoas morreram vítimas da radiação.

Apesar de ser um cineasta relativamente iniciante, Alexander Mindze já escreveu mais de 30 roteiros. E foi com imaginação que ele resolveu criar esta “metáfora fílmica” a partir da história de Valery (Anton Shagin), um membro do partido que percebe a dimensão da catástrofe que virá. Sem forças para enfrentar o silêncio da direção da empresa, ele resolve fugir. A primeira coisa que faz é correr para encontrar a namorada, Vera (Svetlana Smirnova), e pegar o primeiro trem. Ele tenta a fuga o tempo todo, mas sempre tem algo da namorada atrapalhando, um salto alto que quebra, um passaporte que não é encontrado, até encontrar os amigos que tocam em festas de casamento. A partir tudo fica mais surrealista.

O primeira coisa que chama a atenção em Um sábado inocente é a direção de fotografia do romeno Oleg Mutu, o mesmo de A morte do sr. Lazarescu, um dos clássicos recentes do seu país. Este encontro do cinema russo com o cinema romeno só poderia resultar no que deu: uma ópera selvagem e fugaz, ondes os personagens correm contra o tempo para viver o aqui e agora. Com a câmera sempre na mão, na importa se a cena for parada ou em desabalada carreira, o certo é que estamos diante de um filme dilacerado e avassalador. Numa das cenas mais loucas, Valery toca bateria e Oleg Mutu segue a música num plano-sequência do tamanho da música. Não há dúvida que este foi o filme da mostra competitiva que mais saiu dos trilhos até agora. Resta agora esperar até o sábado e ver o que a presidente do júri, a atriz ítalo-americana Isabella Rossellini terá a dizer ao lados dos seus colegas.

Tropa


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


José Padilha veio, foi visto e venceu – os aplausos discretos para Tropa de elite 2 no fim da sessão de imprensa, na sexta-feira pela manhã, viraram praticamente uma ovação quando o filme teve sua projeção oficial, à noite. No dia seguinte, Padilha e seus atores – Wagner Moura e Maria Padilha – não pararam de dar entrevistas. Nove entre dez jornalistas estrangeiros consideraram Tropa 2 melhor que o 1.

Excesso de juventude resulta em confusão


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial



Ainda no sábado, a Mostra competitiva recebeu a produção independente americana Yelling to the sky (Gritando para o céu, em tradução livre), que traz a jovem Zoé Kravitz (filha do músico Lenny Kravitz e da atriz Lisa Bonet) como protagonista. Na verdade, o filme todo marca o início de muita gente. Inclusive da diretora Victoria Mahoney, que tem formação de atriz pelo Actor’s Studio e estreia como diretora com esta história autobiográfica. A princípio, o filme lembra a primeira leva do cinema negro realizado no comecinho dos anos 1990, quando Spike Lee e John Singleton fizeram Faça a coisa certa e Os donos da rua, respectivamente. Infelizmente, a comparação para por aqui porque Yelling to the sky não traz muita novidade ao universo de dramas sobre famílias negras disfuncionais, como o último Preciosa que, inclusive, traz a mesma atriz, a gordinha Gabourey Sidibé.

Com uma direção de fotografia bastante estilizada e muita câmera na mão, Victoria Mahoney tenta apreender a realidade que viveu quando era adolescente no bairro do Queens, em Nova Iorque. A encenação, apesar de conhecida, não é problema. Mas o desenho do personagem vivido por Zoé Kravitz, a adolescente Sweetness, é marcado pela incoerência. A princípio quase aluna mosca morta, apenas observando o pai branco alcoólatra e violento e a mãe perturbada mentalmente, ela de repente vira esperta e começa a vender drogas e a bater em todo mundo.

Como se não bastasse isso, a terceira parte investe na recuperação da filha pelo pai, quando a coisa ainda fica ainda mais sem sentido. Apesar disso, as interpretações são boas. O australiano John Clarke, que faz o pai, e Antonique Smith, a outra filha dele, estão superbem. Mas o filme tem problemas e levou algumas pedradas merecidas da crítica.

Choque entre culturas rende bem


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


No sábado, os filmes em competição começaram a mostrar um pouco porque vieram para um festival tão prestigiado como o de Berlim. E de cara quem teve a responsabilidade foram as pratas da casa, cineastas da novíssima geração da Alemanha. Sleeping sickness (Doença do sono) é o terceiro longa-metragem de Ulrich Köhler, e Almanya – Wilkommen Deutschland (Almanya – Bem-vindo à Alemanha), é o trabalho de estreia de Yasemim Samderely. Sem dúvida que o primeiro é um filme que tem o que dizer sobre o mundo de hoje. A partir da experiência de um médico alemão na África, Ulrich Köhler tenta criar algo que exemplifique a piedade dos países ricos pelos pobres do terceiro mundo. Através da vivência deste médico, que está em Camarões coordenando um plano de saúde para conter a epidemia da doença do sono, o espectador tem a chance de não só testemunhar a situação da dependência da África, como também entrar no mundo do personagem.

Ao contar a história de uma maneira pouco usual, quase com duas partes, a partir de uma elipse temporal que o espectador só apreende aos poucos, Köhler surpreendeu a todos. O médico Ebbo (Pierre Bokma, excelente) está preso na África por razões de trabalho e outras imaginárias. Ele começa a sentir-se como um personagem das inúmeras histórias que ouve dos africanos. Uma delas fala sobre um homem que é tragado pela selva e transforma-se num hipopótamo. Com um final aberto, o filme de Köhler recende a um certo parentesco com a obra do tailandês Apichatpong “Joe” Weerasethakul.

Com um tom de comédia de costumes, Almanya conta uma história autobiográfica da irmãs Samderely, Nesrin, a roteirista , e Yesemin, a diretora, relembram a história do avô, o operário turco Hüseyin, que emigrou para Alemanha na leva de estrangeiros que ajudou na reconstrução do país, quando chegou em 1962. Ele foi o 1001º imigrante do país, data que baliza toda a narrativa do filme, que é uma produção bastante ambiciosa e benfeita, com uma reconstituição de época de qualidade.

Mas, a maior crítica que Almanya recebe é sobre o retrato nostálgico e bem intencionada que as irmãs Samderely pintam da relação das duas culturas, que não é tão róseo quanto elas imaginam. Não é preciso saber muito sobre a história recente da Alemanha para saber que os turcos,imigrantes naturalizados e os nascidos no país, ainda precisam conquistar muito espaços para se sentirem senhores da própria pátria. Apesar de não convencer neste aspecto, digamos, mais político, o filme esbanja criatividade, principalmente na maneira como a volta ao passado é solicitada, como também na ótima trilha sonora. (E.B.)

Veteranos põem a mão no 3D


Wim Wenders fez filme deslumbrante sobre Pina Bausch, Werner Herzog levou seu Cave of forgotten dreams

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial


Berlim – A apresentação de três filmes em 3D é uma data que vai ficar na história da Berlinale. O 61º Festival Internacional de Cinema de Berlim apostou todas as fichas este ano: nos novos cineastas - e nos novos formatos, afinal o 3D é novo de novo. Mas foram os velhos cineastas – ou
seria melhor dizer veteranos? - que dominaram o dia de ontem. Berlim amanheceu bonita, com um pouquinho de neve e uma temperatura em torno de 10º.

No Palácio do Festival, na Potsdamer Platz, dois remanescentes do novo cinema alemão, movimento dos anos 1970, foram os responsáveis pelos melhores momentos do festival até agora. Wim Wenders mostrou em primeiríssima mão seu deslumbrante documentário sobre a coreógrafa Pina Bausch, com Pina. E Werner Herzog levou o seu Cave of forgotten dreams, um documentário produzido pela canal de TV History Channel. Ambos os filmes foram exibidos fora da competição, ou seja, sem direito a prêmios.

Na competição, o único representante foi a animação francesa Les contes de la nuit, de Michel Ocelot. Velho conhecido do público brasileiro pelos admiráveis Kirikou e a feiticeira e As aventuras de Azur e Asmar. Neste seu novo trabalho, Ocelot foi prejudicado porque seu estilo de animação perde no 3D. Como seus desenhos dependem do jogo de luz e sombra, as silhuetas não
adquirem volume e ficam chapadas. E isso atrapalha a fruição das seis histórias que ele desenvolve aqui, a partir do encontro entre um casal de adolescentes e um mágico do cinema. Das seis histórias, todas passadas em lugares exóticos, como o Caribe, o Tibete e a África, apenas uma não funciona muito bem.

Com Wim Wenders e seu companheiro de geração Werner Herzog, cineastas acima de qualquer suspeita, espera-se agora uma nova era do 3D. Pelo menos alguma coisa muito interessante foi vista em Pina e Cave of the Forgotten Dreams. Em Pina principalmente, porque o trabalho técnico proposto por Wenders foi bem elaborado e demandou um tempo bom de realização. Decerto que a memória e o trabalho da coreógrafa, que muita gente conhece depois de sua
participação em Fale com ela, de Pedro Almodóvar, por si só já garante um belo filme. Mas Wenders se esforça muito para usar da criatividade na maneira de captar as imagens no processo estereoscópico. Em muitos momentos, ele consegue vislumbrar o que a técnica pode oferecer. Como documentário, ele se fixa nas coreografias de Pina Bausch - como Café Müller e A sagraçao da primavera, por exemplo, e entrevistas com os bailarinos que conviveram com a coreógrafa, que morreu em 2009.

Assim como Wenders, Herzog utiliza o 3D com muita habilidade no documentário Cave of forgotten dreams, que mostra pela primeira vez as imagens rupestres da caverna de Chauvet, que permaneceu fechada por mais de 20 milhões de anos e só foi aberta em 1994. No seu peculiar estilo de documentarista, Herzog desce às profundezas da caverna paleolítica para nos encantar com as inscrições que os neandertais deixaram nas suas paredes. Com um impressionante uso de luzes dentro da caverna, Herzog faz um relato fascinante sobre as pinturas dos animais, como cavalos, principalmente (alguns em movimento, já prenunciando o cinema). Com os dois cineastas em forma, não só o 3D foi valorizado, mas a estética do cinema em geral.

Um verão inesquecível em Tomboy


Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial



Você já deve ter lido em algum lugar que a filha do casal Brad Pitt-Angelina Jolie gosta de se vestir como menino. Existe uma palavra na língua inglesa para este tipo de comportamento: tomboy. E Tomboy, de Céline Sciamma, que abriu ontem a Mostra Panorama, precisou de duas salas para conter a multidão que se instalou no complexo Cinemaxx, uma das subsidiárias da Berlinale. O segundo filme da cineasta francesa, de 33 anos, é um olhar sobre um verão na vida de Laure (Zoé Heran), que decide se passar por menino durante uma temporada. Ela chega com a família, os pais e outra irmã, para viver num novo bairro, e apresenta-se como Mikael. Além de conviver com todas as crianças da vizinhança, “ele” também provoca sentimentos fortes na menina mais crescidinha da turma.

Céline acredita piamente que a infância é um universo ainda a ser explorado. Há a inocência, mas também a sensualidade e o desabrochar de sentimentos. A maneira como ela prepara as cenas de Tomboy expurga qualquer sentimento de culpa dos personagens. A beleza de Laure-Mikael é etérea, angelical e humana. Ela não arreda pé da convicção de que as crianças são inteligentes, que habitam um mundo com suas próprias leis.

A diretora escolheu um tom para o filme que só os franceses conseguem criar, com ecos de François Truffaut e Louis Malle em alguns momentos. Em outros, revela-se uma diretora de atores de rara sensibilidade, principalmente quando Laura-Mikael está junta da irmã Jeanne (Malonn Lévana) e de Lisa (Jeanne Disson), a amiguinha que é seduzida.

O espectador também é enganado e manipulado pelas aparências, surpreendendo-se quando Laura-Mikael tira a roupa e mostra que não é um menino. Além do mais, fica difícil de acreditar que os pais não estão vendo o menino. Pode até ser a verdade que os pais são acometidos de uma certa cegueira em relação aos filhos. Há sempre uma surpresa para coisas óbvias. A cena em que a mãe (Sophie Cattani) leva a filha para encarar os amigos é constrangedora, mas exemplifica como a família nuclear pensa.

A questão da sexualidade na infância é tabu. Mais ainda com o crescimento de casos de pedofilia. Certamente muitos espectadores poderão ficar um tanto chocados com a ousadia de Céline. Mas é bom dizer logo que o filme não explora voyeuristicamente os corpos das crianças, mas entra no universo delas como poucos cineastas tiveram a coragem.

Tecnicamente, Tomboy é cheio de pequenas sacadas estéticas que dão ao filme um visão muito interessante. A filmagem em digital com câmeras Canon 7D tem um aproveitamento fora do comum, algo perceptível também na sua mobilidade para acompanhar os personagens em longos planos-sequências. Sem dúvida, o filme promete ser um dos hits alternativos deste ano. (E.B.)

Berlinale aposta alto nos novatos


Primeiros filmes exibidos, Margin call e El premio, de cineastas desconhecidos, não causaram muito barulho nas sessões para a imprensa.

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


BERLIM - A 61ª Berlinale começou para valer ontem, com a exibição dos primeiros filmes da Mostra Competitiva e da prestigiada Mostra Panorama. Na primeira, os destaques foram o drama corporativo Margin call, do americano JC Chandor, e El premio, da argentina (radicada no México) Paula Markovitch. Os dois filmes não causaram muito barulho durante as sessões para a imprensa, talvez já demonstrando que a aposta da curadoria em novas caras tenha sido mais arriscada do que parece. Pelo menos é o que se fala nos corredores do Palácio do Festival, principalmente em virtude da ausência de nomes internacionais consagrados.

Margin call conta o caos que se instala numa companhia de investimentos no comecinho da crise econômica americana, em 2008. Um funcionário descobre que a empresa vai afundar. E aí se inicia o corre-corre para salvá-la, ou ao contrário, salvar o dinheiro dos executivos, que tem de ser feito em menos de 24 horas. Basicamente, a história se desenrola entre o pôr do sol e o amanhecer, com os arranha-céus de Nova Iorque como testemunha de uma cidade que tem uma vida à parte.

O diretor e roteirista JC Chandor, que aqui faz seu primeiro filme, tem um passado ligado à publicidade, onde dirigiu algumas dezenas de spots encomendados por grandes corporações. Mas, partindo para o cinema, deixou a propaganda de lado e resolveu criar personagens verdadeiros num ambiente de perigo. De certa maneira, em alguns momentos seu filme lembra, certamente por ter sido filmado em Nova Iorque, o clássico A embriaguez do sucesso, de Alexander Mackendrick, e mais recentemente os dramáticos Wall Street – Poder e cobiça, de Oliver Stone, e Glengarry Glen Ross, de James Foley.

O filme tem um elenco de sonho: os experientes Kevin Spacey, Stanley Tucci e Jeremy Irons estão mais do que bem acompanhados por Paul Bettany, Simon Baker, Zachary Quinto (o novo Dr. Spock), Simon Baker (de The mentalist) e Penn Bradley. No meio de tantos homens, apenas duas mulheres têm participação, Demi Moore e Mary McDonnel. O diretor JC Chandor aproveita cada um dos atores, já que sua história depende basicamente do suporte deles. Com diálogos diretos e bem polidos, Margin call tem ritmo de thriller e segura bem atenção do espectador, no entanto, às vezes o excesso de economês deixa o espectador fora do ar.

Já o drama mexicano-polonês (acreditem, o filme é uma coprodução com a Polônia) El prêmio opera numa clave completamente diferente. Trata-se de uma história semiautobiográfica da diretora Paula Markovitch, que conta como foi sua infância durante a ditadura militar argentina nos anos 1970. Seu filme, como tantos outros da atualidade, é desenvolvido naquela atmosfera rarefeita onde o tempo parece não querer passar, com a câmera colada sempre nos personagens e pouca coisa acontecendo de verdade.

Até que a diretora, também em seu primeiro longa-metragem, se dá bem. A maior sorte dela foi ter encontrado a pequena Paula Galinelli Hertzog, que interpreta a menina Ceci e está em todas as cenas. Ela vive com a mãe, Silvia (Sharon Herrera), numa casinha pobre de frente para uma praia desolada, com os ventos e a chuva atrapalhando a vida delas. Isso, no entanto, não é nada comparado ao verdadeiro terror da mãe, que está foragida e precisa que a família mantenha-se em segredo. Um pequeno texto que Cecília escreve sobre o exército é o momento principal de El prêmio, que PaulaMarkovitch sabe levar com muito sentimento até a belíssima cena final.

Júri da Berlinale ainda espera por Jafar Panahi

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


Pela manhã, a sala de imprensa da 61ª Berlinale teve uma grande movimentação com a coletiva do júri internacional presidido pela atriz ítalo-americana Isabella Rossellini. O principal tema da entrevista foi em torno do cineasta iraniano Jafar Panahi. A cadeira vazia, onde deveria estar sentado o diretor de Offside, foi uma imagem muito eloquente. “Tenho esperança que até o fim do festival ele apareça”, confessou atriz, que está de cabelos curtíssimos e foi muito aplaudida plateia. Entre outras coisas, Isabella disse, respondendo a uma pergunta de um jornalista indiano, que ser filha do cineasta Roberto Rossellini e da atriz Ingrid Bergman foi uma vantagem muito grande, o que lhe permitiu seguir carreira e estar ali naquele momento. Os membros do júri fizeram questão frisar a questão envolvendo Jafar Panahi e como está sendo ferido o direito de liberdade de expressão do cineasta, que foi condenado a seis anos de prisão por um filme que não chegou a fazer, além de ter sido banida por mais 20 de qualquer tentativa de realização. O ator indiano Amir Khan, que o conheceu no Festival de Locarno, em 2002, disse que Panahi era “um homem inteligente” e “um embaixador da cultura iraniana”. “Gostaria muito que ele estivesse”, lamentou o ator.

O diretor canadense Guy Maddin falou que estar num festival é como estudar o cinema. “Uma vez, em Sitges, na Espanha, conheci Coffin Joe (é assim que Zé do Caixão é conhecido internacionalmente). Nunca esqueci ele pegando as coisas com aquelas unhas enormes”, lembrou. O cineasta também falou que a censura poder ter outras faces, como a econômica, se referindo ao fato de o governo canadense ter diminuído as subvenções à realização cinematográfica. Ainda participaram da coletiva a atriz alemã Nina Hoss, a produtora australiana Jan Chapman e a figurista inglesa Sandy Powell.

John Wayne é o grande espelho.


Ator Jeff Bridges declara admiração pelo ator mitológico que fez o primeiro Bravura indômita. Irmãos Coen dizem que filme não é um remake

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


BERLIM – Os irmãos Joel e Ethan Coen e os atores Jeff Bridges, Josh Brolin e Hailee Steinfeld participaram da coletiva de imprensa de Bravura indômita. Chegaram muitos minutos depois de terminada a sessão para a imprensa. A demora para aparecerem motivou até alguns assovios, como se estivéssemos em algum tipo de show e os artistas demorassem a aparecer. Apesar de grosseiro, o engraçadinho que ensaiou o protesto não estava lá tão errado assim. Afinal, a coletiva de imprensa foi um show, isso significando outros
significados da palavra, com o sentido negativo incluso.

Joel disse logo que fazer o filme foi um desafio. Tanto para ele quanto para Ethan, o filme deve ser visto como uma adaptação da novela de Charles Portis, e não como um remake do filme de Henry Hathaway. “Não nos importamos com a versão prévia do livro, apesar de eu ter visto quando era garoto”, explicou Joel. Ele disse, ainda, que o intento deles era conseguir realizar “um filme simples e acessível a todo o público”. Apesar disso, estranhamente eles não se envolveram muito com as perguntas sobre se o filme significaria um revival do gênero.

Mas, tanto os cineastas quanto Jeff Bridges não se cansaram em elogiar o ator John Wayne, que fez o primeiro US Marshall Rooster Cogburn. Para Ethan, John Wayne foi uma figura extraordinária. “Ele era tão icônico que poderia estar no Monte Rushmore”, disse referindo-se ao lugar onde estão esculpidas as efígies dos presidentes americanos George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt. Por outro, Joel disse uma verdade: “Tenho um filho de 16 e ele não sabia quem era John Wayne”, confessou o diretor.

Apesar de não tê-lo conhecido, Jeff Bridges disse que “amava John Wayne”. “Sempre gostei dos filmes dele, principalmente de Rio vermelho. E foi ótimo voltar a trabalhar com os Coen novamente, eles são incríveis”. Bem à vontade, o ator, que concorre novamente ao Oscar de melhor ator, outra vez como um bêbado, falou que temia que ninguém entendesse os diálogos, já que ele falava de uma maneira incompreensível. “Acho que o filme bem poderia ter legendas para ser entendido melhor”, disse para a alegria da plateia de jornalistas que lotou a sala de imprensa do Hotel Hyatt Berlin, na Potsdämer Platz, quase em frente ao Palácio do Festival.

Josh Brolin, que posou de galã a maior parte do tempo e ainda deu uma “cantada” numa jornalista brasileira (que fez por merecer, diga-se), falou que muita gente não lembrava mais da história do filme, por isso foi interessante trabalhar novamente como os Coen (ele foi um dos principais personagens de Onde os fracos não têm vez).

Apesar da presença dos diretores e irmãos e dos atores já veteranos, o rebuliço dos jornalistas era mesmo com a adolescente Haille Steinfeld, 15 anos, que parece mais jovem que a personagem do filme. Perguntada como foi trabalhar com tantos homens, ela disse que a mãe sempre estava com ela nas filmagens. “Todos eles foram figuras de pai para mim”, confessou.

Irmãos Coen acertam o alvo

Nova adaptação de Bravura indômita abre a 61ª Berlinale e mostra diretores Joel e Ethan em ótima forma

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial


BERLIM – Os irmãos Joel, 57 anos, e Ethan Coen, 54 anos, estiveram em Berlim pela última vez em 1998. O filme era o cult O grande Lebowski e tinha como personagem título o ator Jeff Bridges. A trinca reuniu-se novamente em Bravura indômita, cuja sessão de gala abriu ontem a 61ª Berlinale – Festival Internacional de Cinema de Berlin, na Alemanha. Mais uma vez, os irmãos Coen comprovam que o cinema que eles fazem há quase três décadas ainda é um dos melhores em atividade nos Estados Unidos. Não apenas um sucesso de crítica, o filme vem conquistando o coração de milhões de espectadores mundo afora.
Na América do Norte, já ultrapassou a barreira dos US$ 150 milhões. É uma grande soma até mesmo para os blockbusters da temporada, quanto mais para um western, um gênero morto e enterrado, mas que algumas vezes ensaia uma ressurreição. Com suas 10 indicações ao Oscar, Bravura indômita clama a atenção de todos os públicos, inclusive o feminino. O filme estreia hoje em todo o País.

Pesa o fato de o filme ter uma história conhecida e também por ser lembrado como o veículo que possibilitou um Oscar de melhor ator para John Wayne, um dos maiores ícones do cinema ianque de todos os tempos. Assim como o primeiro Bravura indômita, dirigido por Henry Hathaway em 1969, este dos irmãos Coen é uma adaptação da novela homônima de Charles Portis que, inclusive, acaba de ser lançada pela editora Alfaguara.

No final dos anos 1960, a chegada de Bravura Indômita teve um significado muito importante, apesar de o filme não ter se transformado num clássico com o passar dos anos. Mas, alguns historiadores são unânimes em afirmar que o filme tentava levantar o brio do país, muito abalado com o caos no Vietnã e a má impressão que isso causou em todo o mundo. Eles alegam que a história de Portis traz elementos importantes que fazem parte da psiquê do povo americano.

Quem assistir ao filme talvez estranhe o fato de sua personagem principal ser uma garota de 14 anos que empreende uma jornada de vingança para dar cabo ao homem que assassinou o pai dela. Nas mãos de Joel e Ethan Coen, notórios por apresentarem uma visão sempre complexa e pessimista do ser humano – como exemplificam dois dos seus melhores filmes, Gosto de sangue, a estreia deles, e Onde os fracos não têm vez –, Mattie Johnson (a novata Haille Steinfeld, candidata ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) é um anjo da morte, não importa sua carinha angelical. Com muita clareza, o espectador é confrontado aqui com duas forças autóctones da formação dos Estados Unidos: a questão da individualidade e o acerto de contas, transmutado aqui como vingança, que geralmente deixam a justiça de lado.

Na história, a pequena Mattie sai do seu pequeno rancho para buscar o corpo do pai e, no meio do caminho, decide honrar a morte dele. Para isso, vai contratar um agente do governo federal, Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um bêbado fanfarrão que usa de todos os meios possíveis para eliminar os fora da leis do velho Oeste. A primeira vez que Mattie o vê, ele está sendo interrogado por ter cometido uma matança. Naquele momento, Cogburn já mandara 23 homens para a cova. São essas credenciais que fazem com que a garota o contrate e vá com ele, mesmo a contragosto, atrás de Tom Chaney (Josh Brolin), o assassino do seu pai. Outro homem, o xerife Laboeuf (Matt Damon), também está a caça do bandido, acusado de assassinar um senado no
Texas.

Apesar do tom soturno do filme, os irmãos Coen não deixam de lado o humor presente na novela de Charles Portis, talvez mais explorado no filme com John Wayne. Bravura indômita, claro, é um filme mais avançado que o western de Hathaway, e traz elementos formais e estéticos que lhe dão esta grandiosidade.

A princípio, nota-se mais a qualidade dos diálogos e dos atores, que estão em excelente forma, com Jeff Bridges deitando e rolando na pele do agente beberrão. O trabalho para mostrar como eles começam a conquistar um ao outro é muito sutil, o que mostra como a dupla Hailee Steinfeld e Jeffe Bridges teve cumplicidade. Além disso, Bravura indômita encontrou pela mãos dos Coen
uma visão muito digna, ou seja, colocou a história de Portis em seu devido lugar, como um western crepuscular que mostra os últimos estertores de uma visão de mundo de toda uma civilização.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Tudo pronto para a 61ª Berlinale

Festival de Berlim começa quinta-feira com estreia internacional do filme
Bravura indômita, de Joel e Ethan Coen

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br


Desde as 10h da manhã de ontem que os alemães fazem fila no Palácio do Festival para comprar ingressos e garantir as melhores sessões nas diversasmostras da 61ª Berlinale – nome oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que começa nesta quinta-feira. Durante 10 dias, os filmes mais transgressores e experimentais da temporada vão estar disputando a atenção de cerca de 300 mil espectadores, entre eles quatro mil jornalistas, de 80 países espalhados por todos os continentes do globo. A cerimônia de abertura caberá ao western Bravura indômita, de Joel e Ethan Coen, que tem estreia marcada para esta sexta-feira em todo o País. Pela quinta vez, a reportagem do Jornal do Commercio irá acompanhar as principais sessões do Festival, novamente em parceria com o Centro Cultural Brasil-Alemanha.

A Mostra Competitiva vem com 22 longas-metragens, dos quais 16 disputam os famosos Ursos de Ouro e de Prata, que serão entregues na cerimônia de encerramento, na noite do dia 19. Entre os cineastas que estão concorrendo, um dos destaques é a volta do alemão Wim Wenders com o documentário Pina, sobre a coreógrafa Pina Bausch, que terá exibição em 3D. Werner Herzog, seu companheiro de geração e que presidiu a edição do ano passado, também vai mostrar um documentário em 3D, o badalado Cave of the forgotten dreams, que será exibido fora da competição. O terceiro filme em 3D é a animação francesa Les contes de la nuit, de Michel Ocelot.

A competição ainda trará The Turin house, do húngaro Béla Tarr, The forgiveness of blood, do americano Jonathan Marston, The future, da americana Miranda July, e Coriolanus, que marca a estreia do ator inglês Ralph Fiennes com diretor. Para marcar o posicionamento político do festival, o diretor Dieter Kosslick convidou o cineasta iraniano Jafar Panahi para participar do júri da Mostra Competitiva. Ele será o tema da mostra Cineasta do Mundo, com vários filmes seus apresentados na programação oficial, como as sessões especiais de Offside, no Palácio do Festival, uma delas no próximo dia 11, quando se comemora o aniversário da revolução iraniana.

Panahi foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar pelos próximos 20 anos sob a acusação de atentar com o estado iraniano. A atriz ítalo-americana Isabella Rossellini será a presidente do júri internacional, que além de Jafar Panahi contará com a produtora australiana Jan Chapman, a atriz alemã Nina Hoss, a super-estrela de Bollywood Aamir Khan, o cineasta canadense Guy Maddin e a figurinista Sandy Powell.

Pelo terceiro ano consecutivo, o cinema brasileiro não terá representante na Mostra Competitiva. No entanto, a continuação de Tropa de elite, que ganhou o Urso de Ouro em 2008, é um dos filmes principais da Mostra Panorama. Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro vai estar entre os filmes que vão balançar as estruturas da Berlinale. Para o diretor da mostra, Wieland Speck, “José Padilha seleciona o que ele quer do repertório do gênero, mas ao mesmo tempo conta uma história que é muito mais crítica e visionária que os filmes feitos industrialmente jamais poderiam ser”.

Como já virou praxe na Panorama, o cinema gay vai ganhar destaque, com os franceses Romeos, de Sabine Bernardi, e Tomboy, de Céline Sciamma. O Brasil ainda vai estar presente com Os residentes, do mineiro Tiago da Mata Machado, que concorre na mostra Forum. Por enquanto, os outros filmes brasileiros ainda estão em fase de gestação. No Mercado de Coprodução 2011, o curitibano Marcos Jorge aparece com 2 Kidnappings, já no Mercado Projeto de Talento, surgem Rafael Lessa, com Greicekelly, e Aleteia Selonk, com Woman of the father.

Como um festival desse porte não se faz apenas com novos filmes, as sessões de homenagens e retrospectivas da Berlinale estão entre os melhores programas desta edição. Só a retrospectiva em homenagem ao cineasta sueco Ingmar Bergman já seria o bastante para o cinéfilo mais exigente. Serão exibidos mais de 20 filmes dirigidos por Bergman, além de documentários onde
ele e sua obra são os temas.

Entre os longa-metragens que serão mostrados em Berlim – em cópias estalando de nova –, encontram-se clássicos como Morangos silvestres, O sétimo selo, Mônika e o desejo, Persona – Quando as mulheres pecam, A hora do lobo, Da vida das marionetes e Fanny e Alexander.

Entre as homenagens, uma das sessões mais disputadas será a exibição em digital de Motorista de táxi, de Martin Scorsese, que vai contar com a presença do cineasta Paul Schrader, roteirista do filme.

Outros homenageados são os alemães Armin Mueller-Stahl (ator), e Bernd Eichinger (produtor e realizador), recentemente falecido. Uma mostra sobre culinária e cinema é outro chamariz da 61ª Berlinale.