Um verão inesquecível em Tomboy

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
Enviado especial
Você já deve ter lido em algum lugar que a filha do casal Brad Pitt-Angelina Jolie gosta de se vestir como menino. Existe uma palavra na língua inglesa para este tipo de comportamento: tomboy. E Tomboy, de Céline Sciamma, que abriu ontem a Mostra Panorama, precisou de duas salas para conter a multidão que se instalou no complexo Cinemaxx, uma das subsidiárias da Berlinale. O segundo filme da cineasta francesa, de 33 anos, é um olhar sobre um verão na vida de Laure (Zoé Heran), que decide se passar por menino durante uma temporada. Ela chega com a família, os pais e outra irmã, para viver num novo bairro, e apresenta-se como Mikael. Além de conviver com todas as crianças da vizinhança, “ele” também provoca sentimentos fortes na menina mais crescidinha da turma.
Céline acredita piamente que a infância é um universo ainda a ser explorado. Há a inocência, mas também a sensualidade e o desabrochar de sentimentos. A maneira como ela prepara as cenas de Tomboy expurga qualquer sentimento de culpa dos personagens. A beleza de Laure-Mikael é etérea, angelical e humana. Ela não arreda pé da convicção de que as crianças são inteligentes, que habitam um mundo com suas próprias leis.
A diretora escolheu um tom para o filme que só os franceses conseguem criar, com ecos de François Truffaut e Louis Malle em alguns momentos. Em outros, revela-se uma diretora de atores de rara sensibilidade, principalmente quando Laura-Mikael está junta da irmã Jeanne (Malonn Lévana) e de Lisa (Jeanne Disson), a amiguinha que é seduzida.
O espectador também é enganado e manipulado pelas aparências, surpreendendo-se quando Laura-Mikael tira a roupa e mostra que não é um menino. Além do mais, fica difícil de acreditar que os pais não estão vendo o menino. Pode até ser a verdade que os pais são acometidos de uma certa cegueira em relação aos filhos. Há sempre uma surpresa para coisas óbvias. A cena em que a mãe (Sophie Cattani) leva a filha para encarar os amigos é constrangedora, mas exemplifica como a família nuclear pensa.
A questão da sexualidade na infância é tabu. Mais ainda com o crescimento de casos de pedofilia. Certamente muitos espectadores poderão ficar um tanto chocados com a ousadia de Céline. Mas é bom dizer logo que o filme não explora voyeuristicamente os corpos das crianças, mas entra no universo delas como poucos cineastas tiveram a coragem.
Tecnicamente, Tomboy é cheio de pequenas sacadas estéticas que dão ao filme um visão muito interessante. A filmagem em digital com câmeras Canon 7D tem um aproveitamento fora do comum, algo perceptível também na sua mobilidade para acompanhar os personagens em longos planos-sequências. Sem dúvida, o filme promete ser um dos hits alternativos deste ano. (E.B.)


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