Choque entre culturas rende bem

Ernesto Barros
ebarros@jc.com.br
enviado especial
No sábado, os filmes em competição começaram a mostrar um pouco porque vieram para um festival tão prestigiado como o de Berlim. E de cara quem teve a responsabilidade foram as pratas da casa, cineastas da novíssima geração da Alemanha. Sleeping sickness (Doença do sono) é o terceiro longa-metragem de Ulrich Köhler, e Almanya – Wilkommen Deutschland (Almanya – Bem-vindo à Alemanha), é o trabalho de estreia de Yasemim Samderely. Sem dúvida que o primeiro é um filme que tem o que dizer sobre o mundo de hoje. A partir da experiência de um médico alemão na África, Ulrich Köhler tenta criar algo que exemplifique a piedade dos países ricos pelos pobres do terceiro mundo. Através da vivência deste médico, que está em Camarões coordenando um plano de saúde para conter a epidemia da doença do sono, o espectador tem a chance de não só testemunhar a situação da dependência da África, como também entrar no mundo do personagem.
Ao contar a história de uma maneira pouco usual, quase com duas partes, a partir de uma elipse temporal que o espectador só apreende aos poucos, Köhler surpreendeu a todos. O médico Ebbo (Pierre Bokma, excelente) está preso na África por razões de trabalho e outras imaginárias. Ele começa a sentir-se como um personagem das inúmeras histórias que ouve dos africanos. Uma delas fala sobre um homem que é tragado pela selva e transforma-se num hipopótamo. Com um final aberto, o filme de Köhler recende a um certo parentesco com a obra do tailandês Apichatpong “Joe” Weerasethakul.
Com um tom de comédia de costumes, Almanya conta uma história autobiográfica da irmãs Samderely, Nesrin, a roteirista , e Yesemin, a diretora, relembram a história do avô, o operário turco Hüseyin, que emigrou para Alemanha na leva de estrangeiros que ajudou na reconstrução do país, quando chegou em 1962. Ele foi o 1001º imigrante do país, data que baliza toda a narrativa do filme, que é uma produção bastante ambiciosa e benfeita, com uma reconstituição de época de qualidade.
Mas, a maior crítica que Almanya recebe é sobre o retrato nostálgico e bem intencionada que as irmãs Samderely pintam da relação das duas culturas, que não é tão róseo quanto elas imaginam. Não é preciso saber muito sobre a história recente da Alemanha para saber que os turcos,imigrantes naturalizados e os nascidos no país, ainda precisam conquistar muito espaços para se sentirem senhores da própria pátria. Apesar de não convencer neste aspecto, digamos, mais político, o filme esbanja criatividade, principalmente na maneira como a volta ao passado é solicitada, como também na ótima trilha sonora. (E.B.)


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