Uma crônica muito bem observada.

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com
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Surpresa boa na participação brasileira Bróder, de Jefferson D, exibido ontem na seleção Panorama, em estréia mundial no Festival de Berlim. Trata-se de uma crônica muito bem observada sobre três amigos da periferia de São Paulo, faixa etária 23 anos, numa breve reunião para comemorar o aniversário de um deles. Possibilidades de o filme cair em clichês são anuladas por uma honestidade notável do filme, claramente fruto de um universo social bem observado.
O perigo do clichê está bem mais presente na sinopse do que no que vemos projetado. A ambientação é a classe média baixa de São Paulo na já muito filmada topografia urbana das periferias brasileiras desenhadas por becos e vielas. É um ambiente repleto de possibilidades, uma delas o crime. Aqui, é também um espaço essencialmente familiar, algo muito bem estabelecido na primeira meia hora, onde uma feijoada de aniversário junta os amigos Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Silvio Guindane).
Pibe saiu do bairro para criar filho com a esposa, Jaiminho joga futebol na Espanha, é milionário, e Macu, ainda na comunidade, lida com gente que pertence claramente ao lado sombrio da força. É claro que a matriz para esse tipo de narrativa é o Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973), de Martin Scorsese, e o Os Donos da Rua (Boyz’n’D’Hood, 1991), do John Singleton, mas Jefferson D dá ao cinema brasileiro um ponto de vista importante para esse tipo de material.
O trio de amigos divide não apenas a amizade, mas também (ex)namoradas, irmãs, primas, madrinhas e padrinhos. O catolicismo é abandonado para o protestantismo (numa cena muito bem ilustrada) e é quase possível sentir o cheiro do feijão no fogo. Aos poucos, os personagens são desenvolvidos de forma muito acima da media, com perfeita integração de Blat, Haagensen e Guindane), alem de uma participação muito boa de Cássia Kiss.
Curiosamente, a única nota falsa de Bróder é exatamente uma cena onde um personagem branco, da classe mais alta, é visto no seu ambiente. Esse empresario bebe champanhe com sua esposa loira de olhos azuis, num verde campo de golfe.
A segunda metade cai em rendimento, uma vez que Jefferson D parece precisar levar adiante a tese de que os caminhos para os jovens da periferia são, de fato, perigosos, algo arrematado num letreiro final que deveria ter sido arquivado como idéia. De qualquer forma, os desdobramentos são bem articulados, com os dois pés no chão de São Paulo, muito antes de Bróder revelar-se “um filme com uma mensagem”. Bem filmado e atuado, o que mais destaca-se no filme é o simples fato de ele ter coração.


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