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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Berlinale premia a ideia de latinidade

Foram entregues na noite gelada de sábado os prêmios da 59ª Edição do Festival de Berlim. A cerimônia, realizada, no Berlinale Palast, em Potsdamer Platz, definiu como grande vencedor do Urso de Ouro de Melhor Filme peruano La teta asustada, da diretora Claudia Llosa, narrativa marcada pelo realismo fantástico latino-americano. É o segundo Urso de Ouro consecutivo para o cinema latino-americano, o brasileiro Tropa de Elite venceu ano passado. Llosa dedicou o prêmio ao Peru. Outro grande destaque da noite foi a tripla premiação de Gigante, filme uruguaio de Adrian Biniez.

Os resultados de Berlim ano passado e agora soam como enigmáticas finais da Copa América. Brasil (com Tropa de Elite) e México (com o microdrama de risos discretos Lake Tahoe, de Fernando Eimbcke). Este ano, Uruguai e Peru. Representam o reconhecimento artístico via um dos principais festivais internacionais de cinema do mundo para uma produção local que, juntando os quatro filmes, soam especialmente pré-moldadas como cinema, e que seguem caminhos já bem gastos por esse mesmo cinema.

Se Tropa de Elite reveste o filme de favela com estética moderna de filme de ação hollywoodiano, Lake Tahoe e Gigante fazem arte da escola de world cinema lacônico e cheio de boas intenções, ganhador frequente de prêmios ecumênicos. La teta asustada, por sua vez, entra no nicho muito bem aceito de “realismo fantástico” latino.

O simpático Gigante, por exemplo, sobre um segurança de supermercado que apaixona-se pela garota da limpeza, ficou com Melhor Primeiro Longa e Troféu Alfred Bauer, dedicado a “filmes que abrem novas perspectivas na arte do cinema”. Muito longe de ser ruim, Gigante, de qualquer forma, revela-se uma historinha pueril de amor entre um ogro e uma garota, com final especialmente decepcionante, ou, talvez, a verdadeira revelação dos interesses do filme, que parecem voar baixo.

O filme de Biniez ilustra bem os caminhos tomados (e premiados) por esse quarteto de filmes. É correto, parece ter sido feito com grande cuidado a partir de manuais de realização, por alunos atentos à carpintaria. Faltam-lhes, no entanto, alma.

VETERANOS
Curiosamente, o prêmio Alfred Bauer foi dividido com o mestre polonês Andrzej Wajda (Canal, Homem de Ferro). Com mais de 60 anos de cinema, apresentou, em Berlim, Tatarak, relato pessoal sobre a perda, claramente a obra de um cineasta maduro que passa a sua vida a limpo.
Berlim terminou juntando uma mostra praticamente paralela de cineastas veteranos com suas obras novinhas em folha, dos quais o filme de Costa-Gavras talvez seja, de longe, o mais fraco e frustrantemente convencional. Na maioria dos casos, em tratando-se desses realizadores mais velhos, o espectador precisa ajustar-se à quantidade de alma em cena, e perceber a permanência curiosa de estilos de filmar que só poderiam ser descritos como “velha escola”, motivo de grande quantidade de resmungos nas platéias.

A francesa Catherine Breillat, ainda debilitada e andando com auxílio de bengala por causa de um derrame, há dois anos, mostrou na Panorama sua reinterpretação da história do Barba Azul. Interessante o tempo inteiro, o filme passa como uma fábula infantil adequadamente terrível sobre a alma feminina.

O grego Theo Angelopoulos chuta o pau da barraca sem medo de ser feliz com The dust of time, um filme de arte do tipo que passa no inferno dotado do aspecto positivo de ser um filme singular, certamente de ninguém mais do que de Angelopoulos. Sem medo de quebrar suas gruas, o grego acredita na grandiloquência de uma mise-en-scéne solene para falar sobre o peso da história na Europa, num período que cobre 50 anos. Alguns espectadores poderão protestar indo embora, mas o dinheiro do ingresso pelo menos está projetado na tela e no desconforto geral de Willem Dafoe, num elenco também composto por Bruno Ganz e Irene Jacob.

Se Claude Chabrol continua mantendo o nível com o seu novo policial farsesco Bellamy (passados alguns dias, pode-se dizer que seria um “filme menor” do mestre), o grande mistério do atual cinema chama-se Manoel de Oliveira. A piada em Berlim, dos muitos que se encantaram com seu novo filme, Singularidades de uma rapariga loira, eu incluído, é que trata-se do Curioso Caso de Manoel de Oliveira, o cineasta de 100 anos que mostra-se mais leve e jovem a cada filme. Peculiar, com certeza.

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