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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A telona por trás das cortinas

KLEBER MENDONÇA FILHO
cinemascopio@gmail.com

Com baixa substancial na temperatura em Berlim, num clima gelado de inverno e neve, o Festival se encaminha para a reta final com um nível geral apenas razoável na mostra competitiva. Para quem cobre, fica a certeza de que, para tentar novas descobertas nas mostras paralelas Panorama e Forum, escolhas precisam ser feitas com tanta coisa sendo projetada em horários que batem, o que significa sair das projeções principais. Fica o temor de que aquele filme que você não viu sagre-se o grande ganhador do Urso de Ouro. Esse ano, uma das alternativas mais luxuosas para se perder na Berlinale é a Retrospektive 70mm.

São 26 filmes, entre cópias de arquivo e restauradas, de clássicos do cinema dos anos 50, 60 e 70, filmados em negativo 65mm ou 70mm. O formato surgiu do desejo de a indústria do cinema oferecer ao espectador uma experiência de imagem e som que só poderia ser desfrutada numa grande sala de cinema dotada de tela gigante, ataque direto ao avanço da televisão numa época que os filmes perderam monopólio da imagem em movimento. Diretores tinham ao seu dispor uma definição de imagem, e capacidade sonora inigualável até mesmo hoje, com toda a tecnologia digital atualmente disponível.

As apresentações em 70mm, oferecidas nos principais cinemas das grandes cidades do mundo (no Recife, o extinto Veneza projetou o formato, no Rio, o Metro Boa Vista, em São Paulo, o Comodoro, para citar alguns poucos) não eram apenas o filme, mas um ritual. As versões 70mm vinham com música de entrada, e durante cinco minutos as cortinas permaneciam fechadas, só abrindo no início do filme em si, projetados com imagem de clareza impressionante e seis canais de som magnético.

Normalmente longos, os filmes tinham um intervalo (intermission) que acontece no meio da projeção, perfeitamente previsto pelos realizadores num ponto dramático importante do filme, quando as cortinas fecham mais uma vez.

Em Berlim, são 26 filmes, apresentados precisamente como os mesmos foram mostrados nas suas épocas. As duas salas escolhidas pelo festival para passar a mostra são o Kino International, inaugurado em 1963 na Karl Marx Ale, em Berlim Oriental, a principal sala da Alemanha comunista, e onde os clássicos soviéticos da época foram lançados em 70mm, nos processos Sovscope ou Kino Panorama, concorrentes (como tudo nos tempos da Guerra Fria) dos sistemas americanos Super Panavision 70 ou Super Technirama 70. A outra sala é um cinema grande de multiplex na Potsdamer Platz, o Cine Star 8, especialmente equipado para a mostra.

O curador da retrospectiva, Dr. Rainer Rother (presente em todas as sessões, imagina-se por puro deleite de ver os filmes com platéias que têm lotado todos os horários), contou com o apoio dos estúdios 20th Century Fox e Columbia Pictures, em Los Angeles, que forneceram copias restauradas recentemente de Patton (1970), de Franklin J. Schaffner, A Noviça Rebelde (1965), de Robert Wise, e Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz, ou Lawrence da Arábia (1962), de David Lean, exibidos em cópias cristalinas com uma imagem que chega a ser desconcertante.

Algumas outras cópias vieram do que Rother chama de "arquivos amigos espalhados pelo mundo", como cinematecas na Suécia, Noruega e Austrália, onde foi localizada uma cópia de Ben Hur (1959), de William Wyler, que passou sábado à noite numa sessão memorável apresentada por Catherine Wyler, filha do diretor, já falecido.

2001 – Uma Oidsséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, experiência de cinefilia radical (especialmente em 70mm) é uma das sessões mais esperadas, neste sábado. Também foram programados clássicos soviéticos como a bem sucedida adaptação para Guerra e Paz, de Leon Tolstoy, dirigido por Sergej Bondartschuk, tentativa bem sucedida dos russos em fazer o épico histórico (e nacionalista) mais espetacular de todo o cinema.

A Retrospectiva tem atraído fãs do formato de todo o mundo, como Daneil Kasman, critico do site The Auteurs, de Nova York, presente na sessão de Crepúsculo de Uma Raça, de John Ford, segunda à noite. "É uma chance tão rara, mesmo em Nova York esses filmes não passam mais, e as grandes salas, como em todo o mundo, fecharam. Poder ver um Ford em 70mm, e aqui no Kino International, é de fato uma experiência religiosa".

Sentado e se sentindo pequeno diante da tela gigante, o som de uma música nostálgica em seis canais e imagens clássicas pode levar o espectador a pensar sobre como a percepção do cinema está tão atrelada à maneira que vemos os filmes. O formato, abandonado pela indústria que preferiu filmar em 35mm e ampliar os filmes para 70mm e economizar dinheiro é hoje uma relíquia nostálgica do ato de ir ao cinema, lembrada pelos mais velhos e que desperta curiosidade nos mais jovens, num mundo onde o cinema já é sinônimo de telas LCD, alta definição, downloads e iPods.

3 Comentários:

  • Às 17 de julho de 2009 às 12:27 , Blogger Miltão disse...

    Eu no rj, sou o único Operador de um projetor 70mm.
    esta parado e precisanbdo ser reativado por alguem que tenha uma grande idéia e patrocínio..
    acho que sou único na america do sul.
    planetário do rj.
    email: notlim65@hotmail.com

     
  • Às 15 de agosto de 2009 às 15:21 , Blogger Eder Delatore disse...

    Olha só que legal esse depoimento do amigo Miltão!
    Um "Monstro Sagrado" das cabines brasileira, meus Parabéns Milto.
    Pois vale levar essa sua ideia pra frente, e tentar encontrar um apoio/patrocinio do Governo atraves das Leis de Incentivo ou atraves da Iniciativa Privada, pois seria fantastico se alguma marca nacional ou não assumi-se um projeto para colocar algumas mostras como essa do festival de Berlim, em capitais do Brasil.
    Abraços e siga em frente com essa ideia!
    Deus abençoe.

     
  • Às 9 de março de 2012 às 22:53 , Blogger paulo disse...

    Da velha safra dos cinemas antigos daqui de Brasília o Cine Karim da 110 sul era o único cinema que possuia dois grandes projetores de 70mm e som estereofônico.

     

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