"Amerindie" adulto e franco
KLEBER MENDONÇA FILHOPassou na competição ontem no Festival de Berlim o bastante razoável The Messenger (O Mensageiro), um amerindie (filme americano com toque 'independente') que chega à Alemanha da safra mostrada no último Festival de Sundance. O filme do diretor estreante Oren Moverman (roteirista de Não Estou Lá, de Todda Haynes) enfoca um soldado americano que volta ferido do Iraque, e assume a função de notificar fria e objetivamente pais, maridos e esposas que seus entes queridos morreram. Possibilidades de prêmio não são remotas, especialmente para Woody Harrelson, que reprocessa muito bem décadas de clichês do militar duro americano.
O personagem principal é Will (Ben Foster), que volta do Iraque para a namorada que já não mais o quer, início do conceito de más notícias que o filme trabalha. Já triste, recebe a missão de, antes de dar baixa do exército, irá trabalhar com o oficial Tony Stone (Harrelson), um tipo hedonista que tenta administrar o alcoolismo enquanto segue rígidas regras de conduta nas notificações pessoais feitas às famílias dos soldados mortos. Eles vão de casa em casa anunciar verbalmente a morte de um parente, informação que soa como um telegrama falado, a humanidade por baixo das regras militares de conduta.
O filme parece claramente bem pesquisado. "Nunca toque na pessoa, por mais que ela desmorone emocionalmente, não faz parte dessa função. A exceção é, claro, se a pessoa tiver um ataque cardíaco. Homens são mais difíceis de lidar, pois eles podem tentar bater em você", diz Stone para o mais jovem.
Inicialmente, The Messenger vai muito bem, com um tom que soa anormalmente adulto para uma produção tipicamente amerindie. Não há música, sexo é tratado com franqueza, e cenas longas parecem mais preocupadas em respeitar os atores/personagens do que apressar tudo para manter uma idéia de ritmo.
Mesmo assim, já no final, percebemos que The Messenger entra na estrutura pré-moldada de "buddy-movie", sub-gênero bem hollywoodiano onde dois homens se tornam os melhores amigos do mundo, e seguimos suas aventuras. A aparição repentina de Steve Buscemi como um pai que recebe más notícias reforça aspecto amerindie e tira o espectador da cena, com a entrada de figura tão típica. A participação de Samantha Morton como uma viúva que envolve-se com o jovem militar desenvolve-se como alívio dramático.
Na coletiva de imprensa, foi o diretor Moverman que começou perguntando o que a critica tinha achado do filme, com respostas geralmente muito positivas. Ele refletiu que The Messenger talvez reflita um momento de transição política nos EUA que marca precisamente as eras Bush/Obama. "Creio que estamos mudando de uma cultura 'reativa' para uma cultura 'reflexiva'.


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